Nota do editor: este artigo é um resumo do artigo do Bill Gates, publicado no «Gates Notes» [1]


Tente imaginar a vida sem energia. Não haveria forma de ligar um computador, um telemóvel, uma televisão ou uma consola de jogos, nem luzes, aquecimento, ar condicionado, nem a internet para ler este artigo. 1,3 mil milhões de pessoas, sobretudo na África subsariana e na Índia, não precisam de imaginar: é o seu dia-a-dia. Mais dum século depois do Thomas Edison ter inventado a lâmpada, ainda há pessoas a viver à luz de velas.

A melhor forma de ajudar os mais pobres é dar-lhes uma fonte barata e limpa de energia. Com ela, é possível ter hospitais, escolas e tractores para melhorar a agricultura. A energia melhorou a vida de milhões de pessoas no mundo ocidental: permitiu a luz, o frigorífico, os arranha-céus, os elevadores, o ar condicionado, os carros, os aviões e todas as coisas da vida moderna. Sem acesso à energia, os pobres ficam presos ao escuro. Portanto, para ajudar as famílias mais pobres do mundo, precisamos de energia barata (para que a possam pagar) e limpa (por causa das alterações climáticas).

Até porque são os mais pobres as principais vítimas das alterações climáticas, porque dependem mais directamente da agricultura. É particularmente injusto, porque não são eles os principais responsáveis pela emissão dos gases que provocam as alterações climáticas. A única solução é, até ao final deste século, anular por completo a emissão de gases com efeito de estufa.

Este é um enorme desafio. Em 2015, o mundo emitiu 36 mil milhões de toneladas de dióxido de carbono para a atmosfera. Esse valor é o produto da população que habita o planeta pelos bens por ela consumidos, pela energia necessária à produção desses bens e pelo carbono emitido na produção dessa energia. A população encontra-se a aumentar e a quantidade de bens consumidos também (e, se queremos retirar os países pobres dessa situação, é aí que ela terá de aumentar mais). O consumo energético está a tornar-se mais eficiente (carros mais eficientes, luzes LED, partilha de boleias, modos suaves, isolamento das habitações, etc.), o que é uma boa notícia, mas nunca deixaremos de consumir energia. Logo, se a população, os bens consumidos e o consumo de energia estão a aumentar, a única forma de resolver o aquecimento global é encontrar uma forma de energia que não emita gases com efeito de estufa.

A solução são as fontes hídricas, eólicas e solares. Estas tecnologias são cada vez mais baratas e o seu uso mais generalizado, mas não são ainda suficientemente fiáveis. só há energia solar e eólica quando o sol brilha e o vento sopra, respectivamente, mas nós precisamos de energia continuamente. Os sistemas de armazenamento baseados no lítio são demasiado caros e ineficientes para resolver o problema.

Precisamos, portanto, duma invenção milagrosa, tal como o foram, no seu tempo, o computador pessoal, a internet e a vacina contra a poliomielite. Precisamos do mesmo tipo de investigação científica da que levou a esse tipo de invenções e precisamos dela rapidamente. Precisamos de ideias loucas, precisamos da aprendizagem que os inúmeros erros ao longo do caminho nos proporcionarão e precisamos do apoio do governo. Sem fundos públicos, não teríamos tratamentos para o cancro, não teríamos ido à Lua e não teríamos internet.

Mas precisamos também do envolvimento da sociedade; de todos. É importante que aprendamos que desafios energéticos enfrentamos. É importante que experimentemos ideias loucas: uma delas pode funcionar e permitir não só parar as alterações climáticas, mas também transformar a vida de milhões de pessoas.