Nota do editor: este artigo é um resumo do artigo da Melinda Gates, publicado no «Gates Notes» [1]


Quando eu era criança, a maior parte das mães do nosso bairro passavam o dia na cozinha. Por isso, as cozinhas do século XX foram sendo optimizadas, de modo a tornarem o seu uso tão eficiente quanto possível. Porém, o que o design não mudou foi a ideia de que a cozinha era o local de trabalho da mulher.

Desde essa altura para agora, o mundo mudou muito. As mulheres arranjaram emprego e os homens começaram a partilhar tarefas domésticas, mas ainda são as mulheres que fazem a maior parte do trabalho não remunerado, particularmente nos países mais pobres, onde não há cozinhas optimizadas para maximizar a produtividade das tarefas domésticas. Nestes países, as tarefas domésticas — acender o fogo, preparar as refeições, buscar água e lenha, lavar a loiça, ordenhar os animais, etc. — dominam as vidas de milhões de mulheres e raparigas.

Mas este é um custo de oportunidade que prejudica todos. Se fossem libertadas destas tarefas, as mulheres poderiam contribuir para o bem-estar económico da sociedade, através dum trabalho remunerado, do empreendedorismo, etc.; as raparigas poderiam melhorar o seu desempenho escolar, porque o tempo de estudo já não seria substituído por tempo para tarefas domésticas; as mães poderiam levar os filhos ao médico, melhorando o seu estado de saúde; e todas beneficiariam de mais tempo livre, para lazer ou outros interesses pessoais.

É possível reduzir a diferença entre homens e mulheres no tempo gasto nas tarefas domésticas. No mundo ocidental, já houve progressos notáveis; e, no resto do mundo, é possível: reconhecer que o trabalho doméstico é trabalho; reduzir o tempo e energia consumidos pelo trabalho doméstico; e redistribuir o trabalho doméstico de forma mais equitativa entre homens e mulheres.

Reduzir é o mais fácil dos três. Nos países ricos, as cozinhas permitem um trabalho mais eficiente e os fogões não necessitam de que vamos cortar lenha para o mato. As canalizações vão buscar água por nós. As máquinas da roupa poupam-nos o trabalho de ir lavá-la ao rio. Estas coisas não existem nos países pobres, pelo que é necessário inovar e levar a tecnologia até lá.

Mas reduzir não é suficiente: não importa quanto tempo conseguimos libertar para as mulheres, enquanto não reconhecermos que ele é tão importante quanto o dos homens. A divisão do trabalho baseia-se em normas culturais, que cabe às gerações mais novas identificar e contrariar. Na publicidade, vê-se um homem a lavar a roupa, a cozinhar ou a cuidar dos filhos em dois por cento dos anúncios; enquanto mais de metade das mulheres anunciam produtos para a cozinha e de limpeza.

Uma vez identificada a norma, como vamos substituí-la, de modo a redistribuir o trabalho doméstico?

Não há uma resposta fácil. Uma divisão ao meio não é praticável universalmente e nem todas as tarefas são igualmente aborrecidas ou cansativas. Um passo importante é a licença de paternidade: a ciência demonstra que é uma forma de ajudar a igualar as tarefas domésticas.

No final de contas, o que está em causa é melhorar as condições de vida para todos.