Nota do editor: este artigo é um resumo do texto da Talia Jane, publicado no «Medium» [1]


Caro Jeremias,

Quando eu era criança, sonhava ter um carro, um cartão de crédito e um apartamento, porque isso era ser adulto. Dezassete anos depois, tenho todas essas coisas e descobri que são uma prisão.

Quando acabei a faculdade, queria trabalhar na área da comunicação, pagar os meus empréstimos estudantis e sair de casa da minha mãe.

Na altura, com o meu currículo, pareceu-me justo começar por baixo, no apoio ao cliente da Yelp, sonhando com o dia em que mudaria de departamento. Porém, cheguei aos 25 anos endividada e com vontade de chorar todos os dias. À minha volta, os meus colegas têm dois ou três empregos e vivem em casa dos pais — os que podem.

Em cada andar, há comida, fornecida pela empresa. Mas a equipa que a repõe só trabalha à semana e o apoio ao cliente funciona também ao fim-de-semana. Temos de correr os outros andares, para ver se sobrou alguma coisa.

Ainda não fui às compras, desde que comecei este trabalho: como todos os dias arroz, que trouxe quando me mudei para cá, porque não tenho dinheiro para pão.

O seguro de saúde da empresa é fantástico. O único senão é a taxa moderadora de $20, cujo pagamento pode determinar não se ter dinheiro para ir trabalhar na semana seguinte.

Aliás, houve um dia em que não conseguia ir trabalhar, por não ter dinheiro para pagar o bilhete do metro. O meu chefe sugeriu que passasse na via verde sem pagar, porque podia diferir o pagamento da multa; e foi um trabalhador doutra empresa que me deu o dinheiro para o bilhete. Agora, não sei como lhe vou pagar.

Pergunto-me qual é a taxa de retenção dos empregados da Yelp. Eu estou aqui há pouco tempo; e as caras estão sempre mudar. Provavelmente, isso terá que ver com o salário baixo e a falta de formação. No meu primeiro mês, eu dei mais de $600 a clientes, em vales, por diversos motivos. Nos últimos três meses, dei $15. Graças ao meu treino em apoio ao cliente, consegui resolver muitas situações, sem ter de oferecer compensação monetária aos clientes. Qual é o padrão que a Yelp quer estabelecer: o dum serviço que atira dinheiro para cima dos problemas, ou que resolve os problemas? É preferível pagar mais a empregados mais competentes, ou poupar em salários e gastar em cupões para compensar os clientes pelo mau serviço?

Ontem, recebi o meu salário quinzenal: $733,24. Tenho de poupar para a renda da casa ($1.245), que era o apartamento mais barato que encontrei com acesso ao comboio, a cinquenta quilómetros do trabalho. Vir trabalhar custa $11,30 por dia. Eu ganho $8,15 por hora, líquidos. No último mês, gastei $120 em gás e electricidade, porque liguei o aquecimento. Já deixei de o fazer e passei a dormir vestida e com muitos cobertores. Antes de dormir, bebo um litro de água, para ficar com a barriga cheia e não acordar a meio da noite com fome, porque a última vez que comi foi no trabalho.

A conta do telefone está atrasada. Vou desligar o telefone e a internet, apesar de precisar dela para o meu outro trabalho, por conta própria.

Talvez deva vender o meu carro — que é do meu avô, na verdade. O pneu de trás está furado, o farol frontal do lado direito fundido e não tenho dinheiro, nem para o reparar, nem para o imposto.

Neste momento, talvez a nossa solução, dos empregados do Yelp, seja recorrermos à sopa dos pobres. Eu sei fazer arroz, mas uma sopa quente dava jeito, para compensar por não poder ligar o aquecimento.

Também podíamos pedir aos clientes uma gorjeta, a distribuir por todos os empregados que gastam mais de 60% do salário na renda de casa. Dizem que o ideal é 30%. Eu gasto 80%. Em que gastas tu, Jeremias, 80% do teu salário? Dado que a tua riqueza totaliza $111 milhões, isso dá imenso arroz!

Em alternativa, a gorjeta pode servir para ajudar os empregados a pagarem a viagem de casa para o trabalho. Sei que tu tens uma casa para as mesmas bandas que eu [2]. Já te aconteceu não poderes pagar o bilhete do comboio para o trabalho? Já agora, quanto pagas aos teus jardineiros, para manterem o relvado tão limpinho?

Notei que a Yelp parou de disponibilizar águas de coco aos trabalhadores. Assim, poupam $24.000 em dois meses, já que ninguém as bebe (porque sabem ao amargo remorso de ter um emprego que não paga as contas e diminuem a produtividade), e eu pergunto-me o que poderia fazer, se ganhasse $24.000 por ano. Provavelmente, repararia o carro. Sugiro que cortes também os pistachos. Por mim, dispenso bem os pistachos, em troca dum salário que me permita comprar comida. De qualquer forma, ninguém come os pistachos, porque não é possível atender cinquenta chamadas por hora e ainda comer pistachos.

Ficam aqui as minhas ideias. Sei que não valem o teu tempo. Mas, como eu ganho menos, o meu tempo tem menos valor e, por isso, valeu a pena para mim, mesmo que não valha para ti.

A tua amiga alimentar,

Talia