Por Gustavo Martins-Coelho (com HOC)


Quinta-feira, 17 de Agosto de 2006. Quando o Guê e o Agá, finalmente, saíram da pousada [1], era quase hora do almoço. Então, como, no dia anterior, a recepcionista havia recomendado um restaurante muito bom chamado Oriental (mas que servia comida portuguesa), o qual ficava perto, foi unanimemente decidido ir almoçar a esse tal restaurante. A explicação dada sobre como lá chegar fora de que o restaurante ficava do lado direito do jardim que ficava do lado esquerdo para quem saía da pousada da juventude. Munidos desta informação, o Guê e o Agá saíram da pousada em direcção ao restaurante, que se revelou, porém, mais difícil de encontrar, pois jardins em Guimarães há muitos. Se a recepcionista tivesse simplesmente dito que ficava no Largo do Toural, teria sido bem mais fácil dar com ele! O que é que as pessoas têm contra a toponímia?

Mas deixemos estas considerações e continuemos a narrar a aventura em busca do restaurante perdido. O Guê e o Agá, apesar de serem homens, optaram por pedir direcções a um casal de transeuntes que passava. O dito casal ouviu a pergunta com toda a atenção, lançou um olhar de alto a baixo ao Agá e seguiu caminho sem dizer palavra. Seriam mudos? Fica a interrogação no ar. Um pouco mais à frente, o Agá tentou de novo a sua sorte, desta vez perante duas raparigas mais ou menos da mesma idade, que, muito esclarecedoramente, se limitaram a dizer:

— Procurai no centro, que deve ser lá perto.

Guê e Agá lá tentaram o centro, mas não era perto nem longe. Voltas e mais voltas depois, mesmo até depois de passarem por um restaurante oriental de comida, mas não de nome, o Guê e o Agá acabaram por regressar à Alameda S. Dâmaso, onde avistaram um banco e o inevitável Caixa Automático Multibanco. Ora, como o Agá precisava de levantar dinheiro, lá foram e, ao chegarem mais perto, aperceberam-se de que o dito banco ficava situado mesmo à entrada dum centro comercial chamado S. Francisco Centro. Como já era tarde e o restaurante Oriental teimava em não aparecer, os dois amigos resolveram entrar no S. Francisco Centro e procurar algum restaurante.

Como vieram a descobrir, os restaurantes não abundavam; e os restaurantes de qualidade ainda menos. O Guê e o Agá acabaram por comer num restaurante que servia menus executivos e menus de estudante. A bem dizer, o Guê optou por uma lasanha e o Agá por um prego no prato, mas ficou a interrogação no ar sobre por que motivo os estudantes teriam direito a um menu com menos variedades de carne do que os executivos. O paladar estudantil será porventura menos refinado? O prego estava aceitável, a lasanha nem por isso, e a higiene e o atendimento do restaurante deixaram algo a desejar. Um sítio a não voltar, pensaram os dois.

Abrimos aqui um parêntesis na narrativa, para dissertar sobre uma questão fundamental à existência humana e que é, provavelmente, o assunto mais abordado quando duas pessoas se encontram (ou perto disso). O tema constitui, na verdade, um bom desbloqueador de conversas quando se está perante um desconhecido ou alguém de quem não se é íntimo. Falamos, obviamente, do estado do tempo! Em Guimarães, amanheceu chuvoso, mas, quando o Guê e o Agá se levantaram, já o sol ia alto; e assim continuou durante o resto do dia. Apenas à noite a chuva regressou — e diga-se de passagem que o fez em força.

A tarde trouxe visitas aos emblemas da cidade: o Castelo de Guimarães e o Paço dos Duques de Bragança. Mas, antes disso, uma palavra para a Condessa de Mumadona, que tem direito a uma estátua no largo com o mesmo nome, bem em frente ao Palácio da Justiça. A ela se deve a primeira construção do Castelo de Guimarães, destinado a defender o convento que ela fundara. Dada que está a lição de História, continuemos a nossa viagem lado a lado com o Guê e o Agá, subindo até ao Largo Martins Sarmento (é sempre bom encontrar nomes familiares [2]), onde aconteceu algo curioso: junto à Capela dos Passos (sobre a qual falaremos futuramente), existe uma porta de ferro, pela qual saem periodicamente freiras, uma das quais (pelo menos) tem por hábito cumprimentar os transeuntes de forma selectiva. Desta feita, o eleito foi o Agá, a quem a freira desejou uma boa tarde mesmo sem o conhecer, tendo o Guê sido relegado para o desprezo que aos pagãos é devido. Amén!