Por Alice Santos


Este mês, trago-vos uma mulher do Norte. Ela mesma se apresenta como «Felizmente mulher, mãe e avó. Orgulhosamente as três com sotaque tripeiro e sangue azul e branco». [1]. Isto da cor sanguínea daria pano para mangas, mas fica para uma outra ocasião.

«Nasci quando, lá longe, maio acordava / e, no meu país, ainda abril não tinha nome / Nasci nos primeiros minutos da madrugada / numa cama de roupa perfumada / por rosas, cravos e dálias / que o meu pai, no quintal plantava.» [2]

Era o dia do trabalhador do ano de 1950. Maria de Lourdes dos Anjos nasceu no número 125 da Rua do Bonfim, no seio de uma família tradicional, vinda de Salreu, que se estabeleceu no Porto.

Em 1968, tornou-se professora e toda a sua vida foi dedicada aos «seus meninos». Com apenas dezoito anos, foi colocada numa escola masculina, no lugar de Rio Mau, «ali muito pertinho do rio Douro, na primeira freguesia de Penafiel». Como a própria escreveu, «era tão longe, da minha rua do Bonfim, não podia vir  para casa no final do dia, não tinha a minha gente, e eu era uma menina da cidade com algum mimo, muitas rosas na alma».

Foi nessa zona das Minas do Pejão que conheceu uma realidade bem diferente da sua. Talvez não seja exagero se disser que a sua história de vida se faz do somatório de todas as vidas que com ela se cruzaram. Quando, nas tertúlias, recorda o seu percurso, é impossível ficar indiferente a histórias como a dos meninos de Rio Mau. Diz Lourdes dos Anjos:

— Ainda vejo as letras enormes escritas no quadro preto da escola masculina, ao final da tarde de sábado, por moços de doze e treze anos com estes dois pedidos que me faziam: «Professora vá devagar que a estrada é ruim, e não se esqueça de trazer na segunda-feira, papel macio pró cu e roupa boa dos seus sobrinhos prá gente». [3]

A sua missão não se limitava a ensinar a ler e a escrever. Tinha aprendido bem cedo o valor da palavra solidariedade.

Esta mulher, assumidamente tripeira, não passa despercebida no meio da poesia, pois é «Mulher inteira, em qualquer momento», «Mulher atenta, eternamente», «Mulher saudade, solidão, luto sem fim / Mulher maresia trigo, feno, tomilho e alecrim / Mulher terra, arado, semente e ninho» que «serenamente foi rasgando o seu ‘caminho’ / Sem medo, sem ressentimento / Sem arrogância, sem servil obediência / Sem qualquer estúpida violência».

Em S. Pedro da Cova, continua a sua missão: tornar o mundo dos seus meninos menos agreste, menos feio, menos pobre. Seria uma missão impossível, não fosse Lourdes dos Anjos uma guerreira.

As inúmeras histórias das crianças que passaram pela sua sala de aula ficaram-lhe gravadas na memória e, algumas delas, talvez por não conseguir a melhor solução — «são pedaços graníticos» que tornaram a sua «alma enevoada».

Podemos encontrá-las em papel, «Em poemas que não querem rimar / Em palavras semeadas por aí». [4]

Habituada a tratar os bois pelos nomes, não deixa de dizer tudo o que acha que deve ser dito. À época, tal fazia dela uma revolucionária, já que não aceitava injustiças e lutava para ver corrigido tudo o que não estava certo.

Em 2008, «ano em que arrumou as chuteiras», começa a semear poesia pelos mais diversos lugares e através de variados meios. Não sabe dizer «não» aos convites para participar em encontros de poesia — quer no Porto, quer fora da cidade — levando, assim, a poesia a centros de dia, lares, prisões, igrejas, juntas de freguesia, associações, bibliotecas, etc…

Juntamente com Eduardo Roseira e Ana Maria Roseira, organiza «A poesia anda no ar», na Casa de Cultura de Paranhos [5] — encontro mensal que visa a divulgação da poesia, sobretudo, de novos autores, mesmo daqueles que não tenham obra editada.

Participa em programas de rádio, escreve prefácios e apresenta livros, publica e colabora na organização de colectâneas e ainda redige para revistas e jornais.

Após uma vida inteiramente dedicada ao ensino e à família — a «frágil e ressequida folha de outono», aquela para quem «ser livre é olhar-me e saber que estou vestida de verdade», aquela com quem seria suposto descansar, mesmo com todos estes afazeres — ainda consegue tempo para escrever.

É autora de «O Porto nas nossas mãos», «Entre o granito e a neblina» e «Nobre povo». Como se depreende pelos títulos, a cidade do Porto está na génese da sua obra.

No livro «Nobre Povo», as palavras de Lourdes dos Anjos e as fotografias de António Amen dão a conhecer uma cidade do Porto desconhecida por muitos. Conseguimos sentir o pulsar da cidade e das suas gentes. «Uma manhã de neblina / Uma gaivota na Praça / Uma vendedeira num portal / Um palavrão tripeiro / Um pregão brejeiro / Um sorriso rasgado / Uma viela escura / Uma porta escancarada / Um gato na janela adormecido / Um Porto sublime e sentido / Um grito de vida dentro de mim / E o Porto é assim».

Na cabeça desta mulher «vive uma jovem irreverente / com um punhado de sonhos por cumprir. / Vive um projeto de gente / e uma sementeira de felicidade». No seu «corpo que anoitece e envelhece / há vida que o tempo comanda e amadurece / há a alma de dezembro em mãos enregeladas / e a poesia de maio em rosas coloridas e perfumadas».

Ninguém sabe quantos mais poemas irão brotar dos seus dedos, mas sabemos que, «com três ou quatro sílabas», «cada vida é sempre um poema», pois «poesia é uma mágica raiz de vida».

Todos gostam de ouvir poesia dita por Lourdes dos Anjos. Contudo, como não costuma dizer a sua poesia, é comum ouvir nos encontros de poesia frases como:

— Diga aquele dos pregões ou o da viagem de autocarro.

Acaba por aceder ao pedido dos presentes. Na verdade, só ela consegue imprimir a cadência adequada, o sotaque tripeiro de que precisam. Tripeiríssima de corpo e alma, Maria de Lourdes dos Anjos é a «a vida e a voz da cidade».

Era ali. Exactamente ali, naquele largo enorme que tudo acontecia
Era ali, o lugar mágico onde a cidade, cheia de vida, nunca adormecia
Era ali, que se cruzavam os operários da Tabaqueira
De Villares, da Calandra do Bonfim, da Serração de madeira
Da fábrica de prata e dos pregos e ranchos de mulherio
Que aumentavam o caudal e eram o cantar cristalino deste rio
Que, alimentado por longínquas fontes de sofridas gentes
Faziam do Campo 24 de Agosto, o Jardim colorido
Por flores tão diferentes.

Na madrugada, acordavam as ruas burguesas das redondezas
Com a mistura deliciosa do pregão brejeiro com sotaque tripeiro
E a canção ritmada das soletas batendo no trilho do eléctrico.
De repente havia um brusco travar do guarda-freio
E saltava do estribo o ardina apregoando e metendo jornais
Nas caixas do correio.
Olha o Janeiro, o Comércio do Porto
Olha o Notícias

Ao domingo à tarde, era a Emilinha que entrava e saía
Da «Pacense» e do «Jota»
E ouvia-se então o hino do seu ganha-pão:
Olha o Norte Desportivo!
Olha o Norte!
Fala do Eusébio e do Pedroto
Oh senhor! Veja se tem trocadinho! Obrigadinho!
Olha o Norte Desportivo! Olha o «Norte»!

As galinheiras, ai as galinheiras
As pontas do lenço traçadas no alto da cabeça presa à rodilha
Pela mão, com uma cesta de ovos, uma Rosinha, a sua filha
No braçado, um galo careca pedrês de pescoço vermelho
E uma galinha de crista romã de patas amarradas com um cordel velho
Os frangos espreitavam pela rede do cesto que carregava
E iam-se atropelando enquanto ela ligeira, quase correndo, apregoava:
Frangos e frangas!
Ovos galados p’ra chocar!
Oh riqueza! Ofereça, ofereça pr’a gente se ajeitar

Das terras pacenses, tarzendo um vira dançado e batido
Com os protectores dos tamancos, vinham as parolas:
Merca cruzetas
Cadeira ou bancos, tamancos, colheres de pau!
Ai Senhor, o negócio está tão mau!
Oh Senhor! Aqui não há pregos!
É tudo coladinho. Tudo feito com segureza.
Veja as pernas desta mesa!

Do eléctrico, do 16, que passava no Largo do Padrão
Chegava do mar, um outro cantar, um outro pregão
Olha a faneca da linha
Sardinha Biba! Bibinha
Carapau do nosso mar
Ainda o trago a saltar
Oh freguesa! Olhe o meu, tão lindo
Benha-me estrear.
Era a voz das peixeiras. Ousadas, coloridas e atrevidas.

E as farrapeiras de Campanhã, da Sé, das Fontainhas e da Corujeira:
Farrapo Velho, Papel. Olha a Farrapeira!
Das Eirinhas e das ilhas da Lomba e de Justino Teixeira
Vinha a mais castiça e jovem vendedeira
Apregoava alho-porro, manjerico e erva cidreira no S. João.
É pró novo, pró velho e pró rapioqueiro
É pra ter o ano inteiro
Quem quer alho?!
Olha o manjerico! Não meta o nariz que ele seca. Passe a mãozinha e cheire
Assim, filhinho, assim!
E um raminho de cidreira para fazer um chazinho? Acalma tudo que tem nervos
À noitinha é uma maravilha! Dá muito descanso! Pões tudo manso!

E no primeiro domingo de Setembro era a Santa Clara do Bonfim
Com barracas por Pinto Bessa, António Carneiro e Barros Lima
Vendendo melancia, cebola nova e Doce da Teixeira.
Olhem que vermelhinha, doce e sumarenta
Oh freguesa! Olhe a bela melancia!
Menina cheire o cu a este melão
É uma categoria! É de Almeirim!
Doce como o mel! Acredite em mim…
Cebolas encabadas! Em trança, ou ao quilo
Vinde ver gentinha!
Santa Clara nos dê falinha!
É pra acabar! É pra acabar

Mas, nem só as mulheres davam vida à cidade.
Também os homens de voz roufenha
Entoavam e davam força a este Hino à Liberdade.
De boina basca vendia ilusões de porta em porta.
Entrava e saía na loja do Soleiro e na Leitaria
No talho da Beatrizinha e na chapelaria
Na Padaria Industrial e no Sucateiro
Era o homem da Sorte. Sem sorte na vida. Era o cauteleiro.
É sorte grande.
É o treza. Anda à roda hoje!
Quem não arrisca não petisca!
Olha a cautela com sorte! Anda hoje!

De calças de cotim, remendadas nos joelhos e nos fundilhos
Lenço tabaqueiro no pescoço para travar o suor
A bilha ao ombro, coberta de heras para enganar o calor
Vinha o aguadeiro de Nova Sintra e da Quinta da China
Com um pequeno púcaro de esmalte vendia água da nascente da mina
Água fresquinha a dois tostões

O homem das miudezas, engravatado e de voz adocicada
Passeava entre a paragem das camionetas e o velho urinol
Segurava o pequeno tabuleiro preso ao pescoço
Com a alça de couro e ia anunciando:
Agulhas grossas e fininhas! Linhas. Fita de nastro… elástico
O estica e encolhe a dois tostões o metro.
Cordões para corpetes
Esticadores prós colarinhos.
Alfinetes. Botões. Colchetes!

Em frente à junta de Bonfim,
Encostado à velha cabina telefónica
Outra voz se ouvia:
Graxa. É o engraxa
Pé na caixa. Olha o engraxa!
Bamos à vida. Ouça o meu conselho
Duas croas e as botas fazem espelho.
Era o Fortinho engraxador
Homem pequenino, pouco sacana mas bom bailarino
Sempre que podia… engatatão e bebedor.

No Inverno, chegava o castanheiro de sotaque beirão
Vendia castanhas em cartuxo de jornal ou papel grosso e cinzentão
Onde trazia embrulhado o toucinho cozido e o naco de pão
Com um cesto a tiracolo abafado por grossa serapilheira
Que guardava e apurava o sabor e o calor das castanhas
Cantava desta maneira:
Quentes e boas!
A dúzia são cinco croas!
Castanhas quentinhas a escaldar!

De Santo Ildefonso ou da Travessa das Patas
Chega uma outra melodia
É o som da gaita de beiços do fulineiro.
Homem velho, de poucas falas, olhar triste e solteiro
Dá ao pedal, a roda gira e na pedra de esmeril
Afia as tesouras das modistas e das chapeleiras
As facas do talhante e as das peixeiras
Solda o funil das pipas e as asas de zinco
Enxertadas nas canecas de porcelana que têm de resistir às pancadas
No tampo de mármore das velhas mesas das tascas das redondezas.
Ouve-se, de novo, o búlico pregão musical
A Tininha abre a porta e desaperta o avental
Já vai, senhor Oliveira?
Espere, que eu vou já à sua beira
É só este tachinho… está furado!
Faz-me tanta falta. Ponha-lhe um pinguinho.
Quando eu receber a féria há-de levar um fundo novo.
Ai senhor! Que triste a vida do povo!
Compõe a boina, pega na padiola e parte
Passa as costas de mão nos lábios e a música, renascendo,
espalha-se e lá vai anunciando a sua arte.

Ao fundo da rua, na esquina da Avenida Camilo
Sentado num caixote que à noite levava na mão
Estava o cego com a mulher que cantava enquanto ele tocava acordeão.
Entre duas canções de sangue, saudade e dor, ouvia-se baixinho:
Pela alma de quem lá tem, dê uma esmola ao ceguinho!

De Ermesinde, Valongo, Valbom, S. Cosme ou Jovim
De pés descalços, alma de luto e voz silenciada
De porta em porta, ganhando a ceia azeda e suada
Vinham lavadeiras, as carrejonas, e as leiteiras
E as mulheres, mães, às vezes amantes, mas sempre guerreiras!
Eram o Sol, o Hino, a Alma e a vida das madrugadas tripeiras.

Neste cruzamento de ruas da freguesia do Bonfim
Morava a minha cidade perfumada de maresia e alecrim.
Pulsava forte o sangue do meu Porto de antigamente.
Ai como tenho orgulho deste Nobre Povo
Com quem cresci e aprendi a ser gente.