Nota do editor: este artigo é um resumo do artigo do James Allworth, publicado no «Medium» [1]


O jogo do ultimato [2] é uma experiência económica que demonstra como a natureza humana pode ser irracional.

O jogo envolve dois jogadores. O primeiro decide como dividir uma quantidade de dinheiro pelos dois; o segundo aceita ou rejeita a proposta. Se o segundo aceita, ambos recebem o dinheiro dividido da forma decidida pelo primeiro; caso contrário, nenhum recebe nada.

Do ponto de vista económico racional, o segundo jogador deveria aceitar sempre a divisão proposta: pouco dinheiro é melhor do que nenhum. Mas a investigação experimental demonstra que as pessoas tendem a rejeitar ofertas injustas. As pessoas assumem comportamentos emocionais em vez de racionais.

O jogo do ultimato explica, em parte, tanto o brexit como a eleição do Donald Trump. O comércio, a globalização e a imigração trouxeram grandes benefícios económicos aos países em desenvolvimento e reduziram muito a pobreza mundial, mas também beneficiaram os países desenvolvidos. Só que esses benefícios não se distribuíram igualmente pelos povos destes países.

O crescimento económico nos EUA e no Reino Unido acrescentou riqueza de forma desproporcionada ao topo da pirâmide — o primeiro jogador do jogo do ultimato.

O segundo jogador — todas as pessoas que, nos EUA e no Reino Unido, não fazem parte dos escalões superiores de rendimento — vêem cada vez mais dinheiro e vêem o primeiro jogador guardar uma proporção cada vez maior do monte para si.

O argumento humanista — de que devemos seguir por este caminho, porque ele retirou muitos pobres a tal condição — é insuficiente. Além disso, está errado, porque há mais alternativas, para além das de continuar por este caminho ou de deixar os pobres serem pobres. Os benefícios do comércio, da globalização e da imigração são de tal ordem, mesmo para os países desenvolvidos, que, bem geridos, poderiam permitir a todos estarem bem melhor do que estão. Mas não estão e, agora, arriscamo-nos a ver tudo a ir por água abaixo, porque o primeiro jogador foi demasiado ganancioso.

Na sequência do brexit e da nomeação do Donald Trump como candidato republicano, falou-se em ignorar o resultado do referendo e em retirar a nomeação do candidato. Do ponto de vista racional, eu também preferiria outros desfechos. Mas quem defende estas alternativas é alguém no lugar do primeiro jogador, que pretende continuar a repartir os benefícios a seu gosto e obter a aceitação do segundo jogador. Seguir este caminho é perigoso, porque o Donald Trump e o brexit são a forma do segundo jogador recusar a divisão proposta pelo primeiro quanto aos benefícios da globalização, do comércio e da imigração. Ignorar a sua voz seria um erro. Sempre que um pequeno grupo beneficia demasiado, à custa do grupo maior, o resultado costuma envolver uma revolução [3]. É que o sentimento, neste momento, está a ser canalizado para as urnas de voto. O que acontece, se retirarmos esse poder?

O brexit e as eleições nos EUA são uma chamada de atenção. A globalização, o comércio e a imigração são coisas boas, que fizeram crescer o bolo. Mas, se o primeiro jogador não o repartir de forma justa, o segundo jogador não vai querer saber do tamanho do bolo. Vai deitar tudo fora.