Por Gustavo Martins-Coelho


Não vou falar de desilusões. Não quero. Falar repassa.

Se tu soubesses!

Pode ficar para depois.

Os valores são de cada um; respeitam-se. Consigo partilhar vivências com pessoas radicalmente diferentes; desde que respeitem as minhas muitas idiossincrasias, também sou bom a deixar andar as dos outros. Até danço conforme a música, se preciso for. Cada vez menos, mas reconheço que, se fosse a fazer tudo como quero, seria mais um a centralizar prioridades no meu umbigo. Tenho um umbigo muito grande, mas tento ignorá-lo com afinco.

A vontade é pouca.

Por que é que as pessoas acham que têm de fazer conversa simpática antes de pedirem um favor? É totalmente desnecessário e contraproducente. Quando começo a acreditar que se preocupam realmente comigo e como tenho passado, acabo por descobrir que, afinal, apenas lhes importa a ajuda que possa prestar-lhes.

Onde estavas quando precisei de ti? É nestas alturas que se vê com quem se pode contar.

Quando me pedem alguma coisa, eu raramente digo que não. Mas dizer que sim não estabelece automaticamente nenhum prazo; muito menos me obriga a largar tudo, para fazer o que quer que me tenha sido pedido; ainda menos me obriga a fazer doutra maneira que não a minha.

Infelizmente, poucas são as pessoas que sabem esperar. Pelo contrário, na maioria dos casos, quando completo o favor pedido, em vez de receber um agradecimento, ainda sou criticado por ter demorado tanto tempo.

Tenho cada vez menos vontade de ajudar. Eu apresento resultados, não métodos. Não me perguntes se, quando ou como farei, faço ou fiz. Pergunta-me simplesmente se está feito. Ou nem isso: eu dir-te-ei, quando estiver. Aprende a esperar.

Se queres as coisas feitas à tua maneira, nos teus prazos, fá-las tu mesmo.

É fácil prever o passado. Difícil é adivinhar o futuro. Só reconheces um erro depois de estar completamente cometido. Até à epifania, lanças-te a ele com a certeza dum titanic. A crise começa sempre insidiosamente, assim, com uma palavra descontextualizada.

Mas, apesar de não ser fácil, tenho demonstrado jeito para prever o futuro, entre outras coisas: ando a ter uns pensamentos premonitórios. Ainda não sei se isso é bom ou mau. Talvez seja meramente lógico. A uma acção, segue-se uma reacção.

O Newton sabe isto desde o século XVII. Não se pode dizer que eu tenha acabado de descobrir a pólvora, mas sempre consigo impressionar alguns mais desatentos.

Ainda numa Sexta-feira treze que passou, a acção:

— Este é o Gustavo e é médico.

Apresentam-me sempre assim, talvez para fazer notar que se dão com pessoas importantes. Já por causa das coisas, aprendi a dizer que sou zootecnólogo.

Não sei o que faz um zootecnólogo. Nunca pesquisei o conteúdo funcional da área, nem os planos curriculares dos cursos. Nem sei, sequer, onde se ensina isso.

Mas gosto do nome. Zootecnólogo. Parece uma coisa que envolve alta tecnologia e animais. Talvez o zootecnólogo seja o programador dos angry birds. Faria sentido!

E a reacção:

— Olha, eu tenho aqui uma dor — apontou para o cotovelo — achas que é grave?

Típico.

Perguntar ao médico se uma dor de cotovelo é grave é ligeiramente irónico. E anti-inflamatório.

Quem disse que a Sexta-feira treze dá azar!? Tudo está bem quando acaba bem.

Sair do trabalho mais tarde porque se estava a gostar tanto do que se estava a fazer que se esqueceu das horas… Já me aconteceu.

Apanhar o autocarro para casa. Adoro o autocarro: juntamente com o eléctrico, o metro e o comboio, compõe o melhor salão de chá do mundo. Nele se podem encontrar os amigos de sempre, sempre com o sorriso amável de quem vai para o trabalho, ou de lá vem.