Nota do editor: este artigo é um resumo de parte do artigo do George Monbiot, publicado no «The Guardian» [1]


A ideologia que nos governa — o neoliberalismo — é desconhecida da maioria de nós. É como se, na União Soviética, o povo nunca tivesse ouvido falar de comunismo.

O seu anonimato é sintoma e causa do seu poder. A crise de 2007–2008, os Panama Papers, o colapso da saúde e da educação, a pobreza infantil, a epidemia de solidão [2], o colapso dos ecossistemas e a ascensão do Donald Trump são consequências do neoliberalismo, mas têm sido tratadas como se fossem casos isolados.

O neoliberalismo está tão presente, que nem o reconhecemos como uma ideologia, aceitando-o como uma lei científica. Mas a filosofia neoliberal é uma tentativa consciente de alterar a vida humana e mudar a sede do poder.

O neoliberalismo vê a competição como a característica fundamental das relações humanas, redefine os cidadãos como consumidores, transforma as escolhas democráticas em relações comerciais e garante que o mercado oferece benefícios inatingíveis de forma planeada. Por consequência, competição e liberdade são sinónimos, impostos e regulação devem acabar, os serviços públicos devem ser privatizados, os sindicatos distorcem o mercado, a desigualdade é o prémio da eficiência e é benéfica para todos e o mercado garante que cada um recebe o que merece.

Nós internalizámos e reproduzimos este credo. Os ricos convencem-se [3] de que adquiriram a sua riqueza pelo mérito e esquecem as vantagens de educação, herança e classe que os ajudaram. Os pobres culpam-se pelo seu infortúnio, mesmo quando pouco podem fazer para mudar o estado de coisas. O desemprego estrutural, o custo da habitação e a ausência de espaços verdes nada têm que ver com a incapacidade em arranjar um emprego, pagar as contas e perder peso. Num mundo governado pela competição, quem fica para trás são os perdedores.

As consequências vêem-se na saúde mental. Não é de surpreender que o Reino Unido, onde o neoliberalismo foi aplicado com mais afinco, seja a capital europeia da solidão [4]. Somos todos neoliberais, agora.