Nota do editor: este artigo é um resumo de parte do artigo do George Monbiot, publicado no «The Guardian» [1]


Pode parecer estranho que uma doutrina baseada na liberdade de escolha seja promovida pelo lema «não há alternativa». Mas a liberdade neoliberal é destinada ao peixe graúdo, não à arraia miúda. Uma vez livres dos sindicatos, da regulação e dos impostos, os neoliberais podem suprimir salários, envenenar rios [2], ignorar a saúde dos trabalhadores, cobrar taxas de juro usurárias, desenhar instrumentos financeiros exóticos e eliminar as políticas redistributivas.

Os neoliberais advogam o uso de crises, como foram o golpe de Estado de Pinochet, a guerra do Iraque e o furacão Katrina, para impor políticas impopulares enquanto as pessoas estão distraídas [3]. Quando estas políticas não podem ser impostas internamente, são impostas internacionalmente, através dos investor-state dispute settlement [4], que permitem às multinacionais obrigar os Estados a eliminar as suas políticas sociais, ambientais ou de saúde. A democracia fica reduzida a um teatro.

Outro paradoxo do neoliberalismo é que a competição universal requer avaliação e quantificação universais. Por consequência, trabalhadores, funcionários e serviços públicos de todos os tipos são sujeitos a um regime apertado de monitorização, destinado a premiar os vencedores e punir os perdedores. A doutrina que iria libertar-nos da burocracia do Estado criou um pesadelo de papelada.

O neoliberalismo reduziu o crescimento económico, mas aumentou o crescimento dos muito ricos. A desigualdade aumentou desde os anos 1980, após sessenta anos de declínio, devido ao esmagamento dos sindicatos, à redução dos impostos, à subida das rendas, às privatizações e à desregulação.

A privatização dos serviços públicos — energia, água, comboios, saúde, educação, estradas e prisões — permitiu às grandes empresas cobrar rendas monopolistas aos cidadãos e aos Estados [5]. Os detentores dos serviços privatizados do Reino Unido fazem fortunas estupendas à custa de pequeno investimento e cobrança de preços exorbitantes. Na Rússia e na Índia, os oligarcas adquiriram bens públicos a preço de saldo. No México, o Carlos Slim [6] tornou-se o homem mais rico do mundo, à custa da exploração das linhas telefónicas fixas e móveis.

À medida que os ricos se tornam mais ricos e os pobres mais pobres e à medida que os subsídios públicos se tornam mais escassos, estabelece-se uma relação de dependência de crédito entre pobres e ricos, que permite aos ricos extrair rendimento dos pobres através do pagamento de juros sobre o crédito concedido. Mesmo entre os ricos, as últimas quatro décadas assistiram a uma transferência de dinheiro dos que o ganham pela produção de bens e serviço para os que o ganham pelo controlo de activos existentes e extracção de rendas, juros ou mais-valias.

As políticas neoliberais estão cheias de falhas de mercado. Não só os bancos são demasiado grandes para falir, como as empresas encarregues de prestar serviços públicos estão garantidas pelo Estado, porque não se pode deixar colapsar serviços essenciais, como aconteceria se o mercado fosse realmente livre e algumas empresas abrissem falência.

Quanto maior a falência do neoliberalismo, mais extrema a ideologia se torna. Os governos usam as crises como desculpa para cortar impostos, privatizar, esburacar a segurança social, desregular as grandes empresas e regular os cidadãos.

Mas o mais perigoso impacto do neoliberalismo não são as crises económicas que ele causou, mas a crise política. A redução do domínio público reduz aquilo que se pode mudar através do voto. A teoria neoliberal diz que o consumo é outra forma de votar. Só que, como alguns têm mais dinheiro do que outros, os votos estão desigualmente distribuídos. O resultado é a redução do poder dos pobres e da classe média. Esta situação afasta as pessoas da política e leva-as a procurar respostas nas franjas que lhes apelam através de divisas, símbolos e sensações [7].

Quando a interacção das pessoas com o Estado se resume à imposição da autoridade, porque os serviços públicos são prestados por outras entidades, o Estado perdeu a autoridade moral e o totalitarismo temido pelo Hayek emerge.