Por Gustavo Martins-Coelho


Certa vez, estava na paragem, esperando o autocarro. Nunca espero muito: há um autocarro a cada dez minutos. Os autocarros são como os amores: não vale a pena correr atrás, porque, depois dum, vem sempre outro. No caso do autocarro, pode demorar até ao dia seguinte, se for o último da noite. Mas há-de vir.

Claro que isto varia de país para país e de terra para terra. Sítios há, onde o amor acontece uma vez na vida, tal é a frequência dos autocarros.

Aqui, no Porto, amar é difícil.

O Norte da Europa é uma cascata de amores de Verão.

Às vezes, pergunto-me o que vêem os turistas no Porto; o que os faz cá vir. Deve ser boa publicidade, porque a cidade, em si, esgota-se em dois dias e uma noite. O que nos vale são os autocarros. Como são raros e lentos, tal a frequência com que ficam retidos no infernal trânsito que a Câmara tem o desplante de apresentar como sinal do sucesso da cidade, permitem esticar uma visita que, em qualquer país civilizado, se esgotaria num par de dias por uma semana inteira, porque se passa mais tempo a tentar chegar ao ponto de interesse seguinte, do que propriamente a visitá-lo.

Isso e a fila para a livraria Lello, que agora tem outro nome. Só para visitar a livraria Lello, é preciso estar na fila um dia inteiro.

Um dia à espera do autocarro, um dia à espera de entrar na livraria Lello, um dia para visitar a cidade. Três dias bem passados no Porto.

Mas eu estava na paragem e, ao meu lado, uma adolescente. Iria para a escola? Para lá do abrigo da paragem, o mundo em guerra, a África à fome, a Europa refém do lado negro da força económica, a América em greve, a Ásia desaparecida sob as águas. Imune ao mundo que chovia, a minha companheira de espera na paragem tinha notificações novas no Facebook. Felizmente, o Facebook chega a todo o lado, desde que haja um telemóvel. O expoente máximo da realização humana!

Ela parecia feliz. Nem se apercebeu de que, ao lado dela, eu sofria cinco continentes.

Ela está certa. De que vale a atribulação de pensar?

— Eu penso.

Poderia ser o meu segredo na Casa?

Tempos mais tarde, na estação de comboio, dois jovens conversavam. Dizia um ao outro:

— Esta crise não é de agora; o ponto de viragem foi em 2003, 2004.

Dois jovens discutindo economia e política, que felicidade! Pus-me à escuta, satisfeito. É feio ouvir as conversas dos outros. Mas eu não sou bonito e nunca fui.

O balde de água fria chegou pouco depois. Foi castigo por me ter posto à escuta. Se tivesse sabido manter a discrição, ter-me-ia mantido contente o resto do dia, por saber que os jovens se interessam pelos problemas do País. Assim, tive de ouvir a frase lapidar:

— Depois de ganharmos a Liga dos Campeões, deixámos de ter equipa.

Afinal, falavam da crise no Futebol Clube do Porto naquela época… Panes et circenses. Se falta o primeiro, carregue-se no segundo! Tem funcionado desde há milhares de anos e nós, o povo, deixamos.

Continuamos a deixar que nos atirem areia para os olhos. Abdicamos de escrutinar as decisões deles, as motivações, os favores, os roubos e os enganos. Abdicamos de discutir as ideias deles, as propostas, os projectos, o futuro que nos oferecem. Abdicamos até de os escolher ao Domingo, ou — pior — escolhemo-los como ao nosso clube.

Desde que haja futebol, o resto pode esperar.

A culpa da nossa miséria é nossa. Nós somos piores do que eles.