Nota do editor: este artigo é um resumo do artigo da Emily Bell, publicado no «Columbia Journalism Review» [1]


Está a acontecer algo dramático à comunicação social e à praça pública, sem que o notemos ou debatamos: o enorme salto tecnológico e as suas consequências mudaram mais o jornalismo nos últimos cinco anos do que nos cinco séculos anteriores, passando o seu controlo e o seu financiamento para as mãos dum punhado de pessoas, que agora têm o poder de controlar a o destino de muitos.

As redes sociais não engoliram só o jornalismo, engoliram também as campanhas políticas, o sistema bancário, a indústria do lazer, até o governo e a segurança. O telemóvel é o portal do mundo e isso traz enormes oportunidades, mas também enormes riscos.

O jornalismo é uma actividade secundária no negócio das redes sociais, mas tem uma importância central para a cidadania. A internet permite aos jornalistas fazer grandes coisas, mas tornou o jornalismo uma actividade económica inviável.

Aconteceram já duas mudanças significativas, às quais não demos suficiente atenção. A primeira: os editores perderam o controlo da distribuição. As redes sociais filtram as notícias através de algoritmos opacos e imprevisíveis, que decidem o que cada um vê. A segunda: por consequência da primeira, o poder das empresas de redes sociais aumentou e, com isso, a concentração de poder, eliminando a pluralidade na comunicação e a capacidade das leis anti-monopólio de controlarem a situação.

A revolução móvel aumentou o tempo que passamos online, bem como o número de coisas que fazemos online e a atenção que dedicamos a plataformas online. Em média, temos 25 aplicações instaladas, das quais usamos quatro ou cinco diariamente e, entre estas, gastamos mais tempo nas aplicações de redes sociais, com o Facebook à cabeça. Uma das actividades que realizamos no Facebook é ler as notícias.

A competição entre aplicações é intensa: quanto mais tempo conseguirem captar a atenção do utilizador, mais informação podem recolher sobre ele, a fim de venderem anúncios mais direccionados e aumentar o lucro.

No último ano, a estratégia das aplicações para captar utilizadores virou-se para o fornecimento de notícias. Isso é bom, na medida em que fornece mais um canal de distribuição aos editores. Porém, ao mesmo tempo, a Apple anunciou que vai distribuir sistemas de bloqueio de publicidade na sua loja de aplicações. Se a ideia se espalhar aos restantes sistemas operativos móveis, o editor que dependa das receitas de publicidade para cobrir os seus custos não terá outra opção economicamente viável que não o sistema de notícias das aplicações das redes sociais para chegar aos utilizadores, porque apenas estes serão imunes aos bloqueadores de publicidade.

Restam três alternativas aos editores. Uma é passar o jornalismo para as mãos do Facebook, onde não há bloqueio de publicidade. Todavia, o risco de depender exclusivamente do rendimento proveniente dum único distribuidor é, obviamente, muito elevado. A segunda opção é construir um modelo de negócio baseado na venda do próprio produto, através de assinaturas. Não é fácil, contudo, numa situação em que o conteúdo está tão repartido, nem é certo que compense a publicidade perdida. A terceira, naturalmente, é criar publicidade capaz de escapar aos bloqueadores — o patrocínio. Esta estratégia já representa um quarto do mercado da publicidade nos EUA.

Muitos editores reagiram à realidade actual criando as suas próprias aplicações. Mas investir numa aplicação num contexto de queda de receitas de vendas e de publicidade é um risco difícil de suportar para alguns editores. Em alternativa, alguns editores sucumbiram à tentação de limitar a sua distribuição às redes sociais, que estão em crescimento, mas esta é uma estratégia de alto risco: perde-se o controlo sobre a relação com os leitores e até sobre o caminho que as notícias seguem até ao destino. As redes sociais filtram o que é ou não importante, recente e popular e nós não temos outra opção além de confiar cegamente nos seus algoritmos.

Este é um campo totalmente desregulado e uma mudança cultural, económica e política profunda. Estamos a entregar o controlo de partes importantes das nossas vidas pública e privada a um número muito pequeno de pessoas não eleitas e sem escrutínio. É necessária regulação que garanta que todos os cidadãos têm acesso igual às oportunidades e que o discurso público e a liberdade de expressão são tratados de forma transparente. Este é um requisito básico duma democracia funcionante.

Para que isto aconteça, é preciso que as pessoas que construíram as redes sociais percebam que a liberdade de imprensa passará a ser uma responsabilidade sua. Uma das críticas às redes sociais é que elas contribuíram para a redução da qualidade do jornalismo. Por outro lado, se as redes sociais não conseguirem devolver o lucro ao jornalismo enquanto actividade económica, é provável que este deixe de ser um motor do capitalismo para passar a integrar o sector sem fins lucrativos.

Para ser sustentável, o jornalismo precisa de alterar radicalmente a sua estrutura de custos. A próxima geração de empresas de comunicação social serão estúdios de produção de histórias para uma vasta variedade de dispositivos e plataformas, em que publicar as notícias directamente no Facebook será a regra e não a excepção, podendo as empresas prescindir totalmente do seu próprio sítio web. As empresas tecnológicas serão distribuidores e curadores de conteúdo.

O que vai acontecer à actual classe de dsitribuidores noticiosos é uma questão muito menos importante do que o tipo de notícias e de sociedade de informação queremos criar e de que forma.