Por Gustavo Martins-Coelho


Mais um dia passado, mais um moinho derrotado — assim é a minha vida. Não sei o que quero, mas sei que não quero isto. É mais do que muitos podem dizer.

Deus quer, o Homem sonha, a obra nasce? — nem sempre assim acontece. A obra pode nascer sem que Deus queira. A Torre de Babel é a prova disso: nasceu sem que Deus quisesse. Mas, claro está, Deus sempre tem a faca e o queijo na mão — e faz com que a obra engrosse as estatísticas da mortalidade infantil a que o George se agarra nos «Prós e Contras», em que se fala muito, enquanto nada se diz. Porém, a obra nasceu: parto prematuro e condenado ao fracasso, mas inapelavelmente nascituro.

A obra pode nascer sem que o homem sonhe. Que homem? Que sonho? O sonho que sonhei? Ou o sonho que sonharam por mim? A quem pertence o sonho? Eu faço o que me mandam, dou o que de mim esperam. Quem me perguntou o que eu queria? O sonho que sonhei? Vivo o sonho alheio. Quero-o como se fosse meu, cego ao que é, de facto, meu. Alguém sonhou um sonho múltiplo e, quando alguém sonha o sonho de outrem, nasce a obra de ninguém.

Há tanto que fica por sonhar! Nunca antes usara a borracha. Mas há coisas que não fazem sentido: são diarreias que se sentem. Ninguém tem de saber o que se passa na cama. Minto, enquanto digo a verdade.

Não quero acordar. Nem quero dormir. Ter sono e não querer dormir. Ter frio e não querer aquecer. Ter fome e não querer comer. Ter sede e não querer beber. Ter desejo e não querer amar. Ter tudo e nada querer. Todos os dias. Falar muito e nada dizer. A vida é esta soma impossível de opostos.

O Michel Houellebecq [1] disse:

— Le supermarché est l’authentique paradis moderne ; la lutte s’arrête à sa porte.

Claramente, o Michel Houellebecq nunca foi ao Pingo Doce em dia de 50 % de descontos… Ou a Serralves em Festa! Serralves em Festa é a versão cultural dos descontos do Pingo Doce.

Certa vez, estava no Pingo Doce, prestes a pagar as minhas compras, e vi uma cara conhecida na fila da caixa ao lado. Tive de fazer algum esforço, até conseguir perceber donde conhecia aquela cara, mas acabei por identificá-la: fora ela que registara e a quem eu pagara as minhas compras, naquele mesmo supermercado, uns dias antes. Por momentos, vivi uma espécie de pingo-doception: a menina da caixa na fila da caixa para pagar as compras na caixa.

Disse-me um aluno:

— A função das aulas é preparar-nos para o exame.

Dá vontade de chumbá-lo… Mas mesmo com chumbo de caçadeira! Mas depois lembrei-me de que, ao Hélder [1], um aluno já disse:

— Não aceito que me diga que preciso de estudar mais!

Estou metido no meio de crianças. Sempre dá para aprender a virar frangos com classe.

Sempre que penso que já vi tudo, a vida encarrega-se de me provar que estou errado. Sei que atingimos o cúmulo quando uma doente pede o livro de reclamações para se queixar do seu médico por este se ter negado a aceder ao seu pedido, que era ilegal… Definitivamente, quem tem razão é o dinamarquês chanfrado que conheci em Copenhaga, em tempos: a nossa civilização passou o ponto de não retorno. É o fim do mundo em cuecas e eu tenho bilhetes para a primeira fila!

Mas, olhando para trás, já dizia o Garrett:

— Foge cão, que te fazem barão! Para onde, se me fazem visconde!?

Se se substituir «barão» e «visconde» por «doutor» e «engenheiro», perde-se a rima, mas ganha-se em actualidade. Não mudámos tanto quanto isso. Talvez ainda não tenhamos passado o ponto de não retorno, afinal; ou talvez já o tenhamos passado há mais tempo do que supúnhamos.