Nota do editor: este artigo é um resumo do artigo do George Monbiot, publicado no «The Guardian» [1]


A saúde mental [2], incluindo das crianças [3], está em crise como reflexo da falência do nosso modo de vida. Há muitas razões secundárias, mas penso que a razão fundamental é estarmos a isolar-nos uns dos outros. Os mamíferos sociais que são os seres humanos estão a ser imbuídos duma ideologia que lhes diz que serão mais prósperos, se forem competitivos, egoístas e individualistas [4, 5, 6, 7, 8].

O sistema educativo está mais competitivo, ano após ano. O emprego é uma luta quase mortal entre pessoas desesperadas à procura de cada vez menos ofertas. Os pobres são pobres por sua culpa. Competições intermináveis [9] na televisão alimentam aspirações impossíveis. O consumismo preenche o vazio social e intensifica a comparação social. As redes sociais, onde publicamos fotos editadas para parecermos mais elegantes e felizes do que somos [10], permitem-nos saber quem tem mais amigos e seguidores do que nós.

Será de surpreender que, neste mundo solitário, onde o toque foi substituído pelo retoque, as mulheres estejam a afogar-se em perturbações mentais [11, 12]? Estamos perante uma crise de saúde pública, que é visível através das neurociências. A dor social e a dor física são processadas pelos mesmos circuitos cerebrais [13, 14]. As palavras para ambas as situações são as mesmas na maioria das línguas [15]. O contacto social reduz a dor física [16]. O isolamento social está associado à dependência de drogas. Os mamíferos sociais, em condições experimentais, preferem a dor física [17] e a fome ao isolamento.

Não é difícil perceber que, do ponto de vista evolutivo, a sobrevivência aumenta quando os mamíferos sociais estabelecem laços fortes com o resto do grupo. São os animais isolados que são atacados por predadores. A dor física protege-nos das lesões tanto como a dor emocional.

Não é difícil perceber que o isolamento social esteja associado à saúde mental. Mas ele também se associa à demência [18], à hipertensão, à doença cardíaca, ao AVC, à imunidade [19] e até aos acidentes. A solidão tem o mesmo impacto na saúde que fumar quinze cigarros por dia [20].

O isolamento reduz o autocontrolo dos impulsos e faz as pessoas comerem mais [21]. Como os mais pobres são os que sofrem mais isolamento [22, 23], talvez essa seja uma das explicações para a ligação entre o estatuto socioeconómico e a obesidade.

É fácil de ver que algo muito mais importante do que a maioria das nossas indignações diárias correu mal. Então, por que permanecemos neste frenesim destrutivo do mundo e de nós mesmos, se tudo o que ele produz é dor insuportável? Esta deveria ser a questão nas bocas do mundo!

Há algumas instituições a fazer o que podem para lutar contra esta maré, mas, por cada pessoa que ajudam, várias passam em branco. A actual situação não requer uma resposta política; requer algo muito maior: a total reavaliação de toda uma mundividência. De todas as fantasias que o ser humano alberga, a de que podemos viver sós é a mais absurda e talvez a mais perigosa.