Nota do editor: este artigo é um resumo de parte do artigo do Erik Olin Wright, publicado na «Jacobin» [1]


Tendo em conta a forma como o capitalismo devasta as vidas de tanta gente e o poder das classes dominantes em proteger os seus interesses, é fácil compreender a atracção da ideia de esmagar o capitalismo: se o sistema está podre e se todos os esforços para o reformar estão votados ao fracasso (porque, na sua essência, o capitalismo é irreformável), a única esperança é destruí-lo, limpar os destroços e começar uma alternativa do zero.

Mas como é possível as forças anticapitalistas obterem poder suficiente para destruir o capitalismo e o substituir por algo melhor, quando as classes que tornam a reforma uma ilusão também bloqueiam a ruptura revolucionária do sistema?

Embora o capitalismo pareça invulnerável, é um sistema propenso a crises, que podem atingir um nível tal que fragilizem todo o sistema. Estas crises podem tornar-se cada vez mais intensas, tornando o capitalismo insustentável a longo prazo. Nestes momentos de crise, o sistema torna-se vulnerável e a ruptura possível.

Neste contexto, um partido revolucionário pode liderar uma mobilização capaz de tomar o poder, pela via eleitoral ou da deposição do regime existente, e tornar o Estado uma arma de transformação socialista e de repressão da oposição por parte das classes dominantes, desmantelando as estruturas do capitalismo e substituindo-as por instituições económicas alternativas. No século XX, várias versões desta linha de raciocínio animaram revoluções marxistas pelo mundo fora, fazendo as pessoas acreditarem que estavam do lado certo da História e que os seus sacrifícios seriam coroados de sucesso. Contudo, o resultado de tais revoluções nunca foi a criação de regimes democráticos e igualitários alternativos ao capitalismo.

A razão pela qual isso não aconteceu é matéria de discussão acesa. Alguns argumentam que a razão se prende com as circunstâncias adversas em que ocorreram as revoluções. Outros defendem que os líderes falharam, involuntária ou propositadamente, na distribuição do poder pelas massas. Outros ainda referem que qualquer ruptura num sistema social está condenada a falhar, porque há demasiada complexidade em jogo e o desfecho inevitável é o caos, somente anulado através de repressão, que destrói a possibilidade dum processo genuinamente democrático de reconstrução.

Independentemente de qual a razão, a trágica experiência revolucionária do século XX demonstra que esmagar o capitalismo não é suficiente para gerar emancipação social.

Ainda assim, a ideia de ruptura revolucionária nunca desapareceu completamente e, mesmo que já não seja a estratégia de qualquer força política com significado, é ainda capaz de aliciar a frustração e a ira de quem vive num mundo com tão grande desigualdade e num sistema político cada vez menos democrático.

Mas, para realmente transformar o capitalismo, a ira não é suficiente; é preciso uma lógica estratégica com capacidade de atingir o objectivo.