Nota do editor: este artigo é um resumo de parte do artigo do Erik Olin Wright, publicado na «Jacobin» [1]


A principal alternativa a esmagar o capitalismo [2], perfilhada pelos partidos sociais-democratas [3] no século XX, foi domar o capitalismo. O argumento básico é que é possível construir instituições capazes de controlar o capitalismo e neutralizar os seus perigos: a desigualdade, a destruição dos empregos tradicionais, o aumento da incerteza e a destruição ambiental.

Esta estratégia envolve lutar contra os argumentos dos capitalistas, que racionalizam o seu privilégio e poder alegando que a regulação e a redistribuição destroem o empreendedorismo, a competitividade e os incentivos. A mobilização popular e a vontade política podem, contudo, vencer esta batalha e impor a regulação e redistribuição necessárias a melhorar o capitalismo, sem anular o lucro necessário ao seu funcionamento.

Domar o capitalismo [4] é uma forma de anular os efeitos nocivos dos perigos gerados pelo capitalismo, sem contudo os eliminar. Às vezes, isso é suficiente.

As três políticas públicas mais eficazes a contrariar os perigos do capitalismo são a saúde e a segurança social; a educação e os transportes públicos, bem como o financiamento da ciência, da cultura e do lazer; e a limitação das externalidades negativas geradas pelas empresas, nomeadamente em termos ambientais, de segurança do consumidor e das leis da concorrência.

Estas políticas não significam que a economia não seja capitalista: os capitalistas continuam a poder aplicar o capital nas oportunidades de lucro oferecidas pelo mercado e a receber os lucros, subtraídos dos impostos, gerados por esses investimentos. O que muda é o Estado assumir a responsabilidade de corrigir as três principais falhas do mercado (a vulnerabilidade individual, a provisão de bens públicos e as externalidades negativas da actividade económica focada no lucro), resultando num sistema capitalista funcionante e sem conflito social.

O neoliberalismo contraria esta estratégia, através duma variedade de forças que diminuem a vontade e a capacidade do Estado neutralizar os perigos do capitalismo. A globalização tornou o movimento de capitais mais fácil, permitindo-lhes escapar para zonas menos reguladas; aliada à tecnologia, enfraqueceu o sindicalismo; e, associada à financeirização da economia, levou a enormes aumentos de riqueza e desigualdade, que aumentaram o impacto político dos oponentes do estado social-democrata.

Talvez a social-democracia seja uma anomalia histórica e o capitalismo selvagem seja indomável e inevitável. Os defensores das rupturas revolucionárias [2] sempre afirmaram que domar o capitalismo era uma ilusão, que desviava forças da construção dum movimento político capaz de o esmagar.

Mas talvez as coisas não sejam tão negras. O argumento de que a globalização impõe limitações à capacidade dos Estados cobrarem impostos, regularem o capitalismo e redistribuírem a riqueza é verdadeiro apenas na medida em que as pessoas acreditam nele. As limitações não são assim tão grandes e resultam mais da crença de que elas existem de facto. O neoliberalismo é uma ideologia e não uma descrição científica da realidade. Mesmo que algumas políticas específicas da social-democracia sejam hoje menos eficazes e precisem de ser repensadas, domar o capitalismo permanece uma expressão viável do anticapitalismo.