Por Gustavo Martins-Coelho


Apesar de não saber rimar [1], o insólito rima comigo. Certa vez, comprei um telemóvel por engano. Não me enganei na marca nem no modelo; enganei-me foi no produto. Haverá alexandrino mais notável?!

Navegando pelo insólito, chegamos ao grande paradoxo da moderna sociedade humana: fazemos tudo para não nos mexermos o dia inteiro e, de seguida, vamos a um ginásio pagar para nos porem a mexer…

Não compreendo… Talvez porque, como o conhecimento é escasso, não é para andar aí a ser espalhado e ninguém achou pertinente explicar-me a lógica desse paradoxo. Um dia, talvez venha a percebê-lo.

Ainda hei-de descobrir também o que vem a ser o ípsilon duplo! Vivendo e aprendendo…

Escrevo, escrevo, escrevo — e não saio do sítio! A escrita é uma bola de neve, que vai crescendo à medida que junta a si as palavras soltas que encontra pelo caminho, numa amálgama acrescida. Uma palavra aqui, outra ali e as frases incham, até se tornarem parágrafos e estes ocuparem páginas e páginas de tipografia. Sempre em prosa e sempre com duas palavras em falta.

Quais são?

Tróia foi arrasada pelos Gregos. As torres de Tróia foram implodidas pelo Sócrates. Não é uma tragédia grega, mas poderia ser.

A História repete-se como farsa.

O Ricardo Araújo Pereira perguntou uma vez se o Ikea vende móveis baratos ou puzzles caros [2]. A questão permanece por responder. Certa vez, comprei lá uma mesa-de-cabeceira. Só percebi que era uma mesa-de-cabeceira porque estava exposta, para venda, no sector das mesas-de-cabeceira. Assim, vista de longe, parecia um banquinho pequenino, para as pessoas baixinhas chegarem às prateleiras de cima, lá no alto dos móveis da cozinha (ou doutra divisão; não discriminemos).

Descobri a mesma mesa-de-cabeceira, numa outra casa, fazendo o papel de mesa de apoio, na divisão que fazia de escritório e também de sala de estar, o que é outra coisa que me faz confusão: por que há-de o escritório ser simultaneamente uma sala de estar? O lazer e o trabalho conjugados no mesmo espaço são a forma ideal de não se trabalhar a sério, nem se brincar a sério. É muito importante saber dedicar-se a sério à brincadeira!

Se eu fosse esta mesa-de-cabeceira, vendida como mesa-de-cabeceira, imaginada como banquinho e usada como suporte da impressora, a esta hora teria necessidade do apoio dum psicólogo, para me ajudar a resolver os problemas de identidade que já teria inevitavelmente desenvolvido.

Mas talvez não devesse. Os psicólogos são uma das piores coisas que Deus teria inventado, se existisse. Assim, são só uma criação humana.

Os psicólogos estão para a amizade como as prostitutas para o amor. Uma pessoa, quando está deprimida, telefona a um amigo, ou combina um encontro com ele, e chateia-o até lavar a alma. Ou, então, paga a um psicólogo para fazer as vezes de amigo.

Os psicólogos assustam-me. Tudo o que eu disser pode ser usado para me ajudar. É pior do que a Polícia: essa só usa o que digo — contra mim. Os psicólogos insistem em compreender-me, mesmo (ou sobretudo) quando eu mesmo não me compreendo.

Os amigos não combinam encontrar-se na Praça de Lisboa. Ninguém dá como ponto de referência a Rua Cândido dos Reis com a Rua da Fábrica. Toda a gente vai às Galerias. O que é que esta gente tem contra nomes de ruas?!

A Anémona é, na verdade, uma alcachofra e fica na Praça da Cidade de Salvador, que, por acaso, é uma rotunda. Mas podia não ser. Decerto, nem sempre o que é tolhe o que poderia ser. Só às vezes podemos deixar que assim seja.

Não posso acabar de escrever, porque me faltam duas palavras.