Por Gustavo Martins-Coelho


De cada vez que me dedico à montagem dum móvel comprado no Ikea, confirmo nova, dolorosa e inequivocamente que o meu futuro não está na carpintaria — sem margem para qualquer dúvida. Enfim, trata-se apenas de mais uma das minhas múltiplas limitações [1]; há que saber viver com elas, mesmo que entristeçam.

Descobrir, confirmar, relembrar a verdade numa caixa plana do Ikea dói. Só a verdade dói, porque eu não posso.

Não posso doer-me: falta o «eu» ao verbo! Tento explicar que me doo, mas acabo a doar-me. Condoo-me com isso e não me dou.

Dantes, podia doer-me. Doleo me. Perdemo-nos algures na tradução e a dor passou a vir só de fora. É uma injustiça. Onde está a minha dor de dentro? Aquela que é só minha. A única que é só minha! Tenho o direito a doer-me!! Nenhuma gramática pode retirar-me esse direito!!!

Doer-se é uma arte, quase tão complexa como procrastinar [2]. Não dói a si mesmo quem quer! Dói-se quem pode. A minha professora de Francês fez um curso de Sofrologia [3]. Ela sabe doer-se.

Eu também queria poder doer-me, mas a gramática não me deixa.

Resta-me rir. Rir é saudável. É um rio. A canção diz:

La gente viva feliz
aunque no tenga permiso.

Rio-me, sobretudo, com as pequenas coisas da vida. As coisas pequeninas têm sempre mais graça. Deve ser por isso que há pedófilos — porque as crianças são pequenas. A solução para a pedofilia era interná-los todos em lares de terceira idade.

Mas falemos do que realmente interessa! Está então clara e definitivamente respondida a questão [4]: são puzzles caros — e não mobília —, o que o Ikea vende. O que eu tenho em casa são puzzles, porque não se parecem de todo com móveis. Vivo num museu de arte contemporânea. Tanto que eu queria viver numa casa! Fico fechado no museu, transido de medo de que venha a segurança dizer que não posso tocar na arte…

A arte contemporânea faz-me sentir estúpido e insensível. Não é a única coisa que me faz sentir estúpido, mas fá-lo com particular talento. Por mais que olhe com atenção, que inspire fundo, para absorver a cor, a forma, a matéria em sinestesia, por mais que busque um significado, ele elude-me. Enfim, trata-se apenas de mais uma das coisas para as quais não tenho suficientes habilitações académicas [5].

No fundo, não tenho habilitações académicas para a modernidade, seja ela na cozinha [5] ou no museu (possivelmente, haverá museus da arte culinária, mas eu nunca visitei nenhum). Sou, eu mesmo, uma peça de museu. Bem conservada, mas desactualizada, desconhecida, inútil e inestética.

Vivo num tempo que passou, forçado a conviver a contragosto com gerações que não são a minha.

Apesar da minha antiguidade, creio que não teria sido feliz no antigo Egipto. No antigo Egipto, não havia papel. Então, quando precisavam de ir ao quarto-de-banho, usavam papiro higiénico. Ou talvez um antecedente de chuveirinho.

Sou antiquado, também, na educação. Estes métodos de ensino modernos não me agradam. Prefiro a boa e velha gramática. Finalmente, estou a aprender línguas!

Antigamente, era a máfia quem vendia protecção. Depois, vieram as empresas de segurança. Liberalizou-se o mercado. Percorremos um grande e longo caminho. Nunca tive relações nem com uma, nem com outras. Isso não faz de mim antiquado; faz de mim excluído.

A única modernidade em mim é a informática. E arte. Há muita arte escondida na informática — e, essa, identifico-a bem! A luz do computador é amarela, a da placa de rede é laranja, a do disco externo é azul, a do rato cor-de-rosa e a das colunas vermelha. A informática é muito colorida.

Não tenho talento de carpinteiro, mas, em compensação, sou um verdadeiro fado do lar. Porém, esforço-me por dar a entender que não.