Nota do editor: este artigo é um resumo do texto do José António Saraiva, publicado no «Sol» [1]


Actualmente, há prémios para todos os gostos e galas para apresentar todos eles. Agora, foram as estrelas Michelin 2017. Não me lembro de que costumasse haver gala, mas talvez tenha andado desatento.

Portugal vai ter 26 estrelas Michelin no próximo ano: cinco restaurantes com duas e dezasseis com uma. Mas não há um único restaurante contemplado que sirva cozinha tradicional portuguesa e, entre os vinte chefes distinguidos, há seis estrangeiros. Os inspectores da Michelin desprezam olimpicamente a identidade de cada país.

Conheço alguns restaurantes premiados e de nenhum guardo boas recordações. Num, serviram-me como sopa um caldo incolor e insípido, com um fígado de pato a boiar, que parecia sola de pneu imastigável e que acabei a engolir inteiro, quase sufocando, por se tratar dum jantar de cerimónia. Noutro, pedi um borrego assado, mas veio uma pasta com forma de pudim no centro do prato, com dois pedacinhos mínimos de borrego mal passados e um pé de hortelã em cima, a enfeitar. Num de nouvelle cuisine — este não premiado — pedi um caldo verde, que trazia chouriço em spray

Nestes restaurantes, antes da refeição, vem geralmente um empregado apresentar uma sopa com grande pormenor. Após cinco minutos de conversa, põe à nossa frente um dedal — rigorosamente um dedal — com um líquido que mal conseguimos saborear mas que, de acordo com as boas maneiras, temos de dizer que é bom.

Passei por muitos países — França, boa parte da Europa, Japão, Índia, Paquistão, Macau, costas Leste e Oeste dos EUA, Norte e Sul de África, Brasil —, onde experimentei muitas cozinhas, e posso dizer que Portugal tem uma cozinha riquíssima, das melhores do mundo. A cozinha portuguesa é muito variada e criativa (basta ver todas as maneiras de cozinhar bacalhau); temos cozidos, fritos, grelhados, guisados, assados no forno; temos legumes que proporcionam excelentes saladas frescas. Será normal que os inspectores da Michelin venham cá e só premeiem a nouvelle cuisine, muito sofisticada mas muito menos genuína e variada do que a nossa?

O Guia Michelin pretende ser universal, ou é um guia para franceses em viagem pelo estrangeiro? É um insulto à nossa cozinha. Alguns restaurantes que servem óptima cozinha portuguesa são pura e simplesmente desprezados pelos inspectores. Mas o Guia Michelin nem sequer é bom para os franceses: quando eles vêm cá querem conhecer a cozinha portuguesa ou comer a comida francesa que conhecem de ginjeira?

Julgo que os Portugueses, em vez de exultarem com as 26 estrelas Michelin, deviam desprezar este guia — que nos despreza. Com a marca Michelin, bons só são os pneus.