Nota do editor: este artigo é um resumo do texto do Jérôme Latta, publicado no «Le Monde» [1]


As revelações do «Football leaks» [2] devem fazer-nos considerar a evolução económica do futebol nos últimos trinta anos, no que aquela o transformou e em que medida ela é um sintoma de patologias mais globais.

Ao colo do capitalismo globalizado

A origem primeira da situação actual encontra-se na transformação dos clubes de futebol em empresas, de cujo património os accionistas passaram a dispor segundo a sua vontade. As entradas em bolsa foram, maioritariamente, um falhanço, e os clubes tornaram-se presas de oligarcas russos, fundos americanos, milionários asiáticos, emires, etc., porque, embora o futebol seja um péssimo investimento, é uma ferramenta diplomática, económica e política não despicienda e é por isso que atrai todos aqueles a quem interessam os circuitos financeiros opacos. O capital dos clubes mais ricos não tem geralmente ancoragem local e está disperso por uma nebulosa de sociedades complicadas e escondidas umas nas outras, com inevitáveis ramificações em paraísos fiscais.

Os custos salariais faraónicos levaram a oligarquia dos clubes europeus não só a militar para obter regimes fiscais especiais, aproveitando a competição fiscal entre Estados, mas também a recorrer a dispositivos menos lícitos para remunerar as estrelas dos seus plantéis, escapando aos impostos. Os próprios jogadores, através dos seus gestores de património, fiscalistas e outros conselheiros menos oficiais, procuraram reduzir ao mínimo os impostos a pagar sobre os seus ganhos.

A acolhedora selva das transferências

As revelações do «Football leaks» implicam não só jogadores como Neymar, Messie Cristiano Ronaldo, mas também «super-agentes» como Jorge Mendes [3] e a omnipresença e total opacidade da sociedade Doyen Sports [4], controlada pelo poderoso Nélio Lucas, e uma miríade de sociedades que geram comissões em cascata e que fazem transitar o dinheiro por circuitos dissimulados.

Assistimos portanto à aparição duma nova posição de poder por estes «directores desportivos», que estão tão ou menos preocupados em recrutar os melhores jogadores como estão em assegurar uma rede poderosa de contactos e de circulação de dinheiro, vivendo em permanente situação de conflito de interesses e enriquecendo os intermediários de maneira opaca.

Agentes e directores desportivos evoluem num mercado de transferências que cresce exponencialmente em número de movimentos e valor envolvido, sem que, desde a desregulação inicial, com o caso Bosman, em 1995, haja qualquer tipo de controlo.

A indiferença do poder público

Os sindicatos do jogadores reclamam desde há anos uma reforma que venha abolir o sistema actual de transferências, demasiado especulativo e que priva os jogadores da liberdade de escolha, e que limite o peso dos agentes e o valor exorbitante das suas comissões. Contudo, o poder público, pouco interessado em afrontar uma indústria próspera e que contribui para distrair o cidadão do seu próprio desempenho, tem ignorado estes apelos.

O caso paradigmático é a Premier League, que, perante a complacência da Federação e do governo, é a casa da evasão fiscal, da opacidade, da histeria e das práticas duvidosas — como aquela que custou o posto de seleccionador ao Sam Allardyce, denunciada por jornalistas [5].

A caminho dum choque de consciência?

Este estado de coisas não é específico do futebol, ilustrando a cupidez sem limites dos hiper-ricos, sejam eles quem forem, que os leva a querer acumular fortunas impensáveis e impossíveis de gastar. O Cristiano Ronaldo, que ganha quase 7.000 vezes o salário médio espanhol, país em grandes dificuldades económicas e sociais, quis escapar aos impostos [6], recusando a ideia de contribuir, através do Estado, para o bem comum; mas, paralelamente, compra uma imagem pública e uma consciência através da participação em acções de caridade…

Os «Football leaks» são a continuação duma série de escândalos revelados pelos «Panama papers» e os «Luxemburgo Leaks»: a indústria do futebol é só uma entre muitas e muitas fortunas da economia globalizada que, com a cumplicidade dos Estados e a benevolência da UE, se organizam para escapar às contribuições colectivas e espoliar os cidadãos.

Mas a sua especificidade advém de ser uma indústria do espectáculo. Se, por um lado, ele é «o ópio do povo», por outro, resta-nos a esperança que, dada a sua enorme visibilidade, este escândalo contribua para uma tomada de consciência geral sobre a necessidade de equiparar a evasão fiscal a um roubo em grande escala, de consagrar os meios necessários ao seu combate e de sancionar os seus autores de forma proporcional às somas confiscadas ao colectivo. Decerto, a comunicação social desportiva não tem interesse em fazer isto acontecer, porque, além de tender naturalmente a privilegiar o que se passa dentro do campo, em detrimento do que acontece fora dele, no seu espaço noticioso, o seu interesse na venda do futebol impede-os de arriscar alterar ou prejudicar a imagem do seu produto.

Enfim, esperemos que os «Football leaks» nos levem a questionar no que o futebol e a nossa economia se tornaram.