Por Gustavo Martins-Coelho


— Espera!

Uns dizem-me que espere. Que te dê espaço. Que te deixe digerir tudo o que se passou entre nós.

Outros dizem-me que não perca tempo contigo, nem to faça perder comigo. O tempo é demasiado escasso, para o desperdiçarmos a ver-nos desvanecer.

Vejo chegar o fim da festa. Morres, aos poucos, à minha frente. Deixas o teu mundo morrer contigo e, com ele, partes do meu mundo que o intersectam.

Estava tudo pronto, duradouro, sólido como uma rocha. Veio uma revoada e tudo mudou. A inconstância é uma constante — talvez a única constante verdadeira! Tudo o resto são planaltos de assimptotas.

Outra revoada acontece e o que fora e já não era volta a ser. Não quero que me compreendas. Ouve-me, se quiseres, mas não esperes compreender. Muito menos julgues compreender, porque decerto te equivocarás.

Escrever uma carta de amor é uma empresa rebuscada, que requer toda a concentração e toda a dedicação que se puder convocar. Requer o ambiente propício, uma luz ténue, alguma música de fundo — a música adequada, que só alguns têm o condão de saber escolher. Escrever uma carta de amor é a forma mais sublime de fazer amor. Não se escreve uma carta de amor em público, no trabalho ou no autocarro; escreve-se em casa, no ambiente certo.

Numa carta de amor, verte-se o que há de bom em quem escreve — pensamentos aleatórios para partilhar com a única pessoa suficientemente especial para ser merecedora de conhecer o mais profundo sentimento de alguém. Mas os pensamentos aleatórios são perigosos! A aleatoriedade pressupõe a ausência de controlo. Um pensamento aleatório é um pensamento, como deveriam ser os do jornal: livre de constrangimentos exteriores. Então, se é livre de constrangimentos, ninguém pode saber que caminho ele vai querer seguir — e ele pode decidir acabar impróprio duma carta de amor, depois de escrito.

Escrever uma carta de amor é uma roleta russa. As cartas de amor são, potencialmente, a melhor forma de arruinar o amor. Tudo depende do rumo tomado pelo pensamento à solta…

A segunda melhor forma — mas mais certa — de arruinar o amor é o tempo. O tempo corrói o ferro, o tempo esfarela uma pedra, o tempo até faz desaparecer estrelas. Destruir o amor não se afigura particularmente difícil a quem é capaz de tamanha destruição.

Havia uma canção que dizia:

When there’s nothing left to say
then something is wrong.

É difícil distinguir entre o silêncio confortável da serenidade do reencontro e o silêncio desconfortável dos obstáculos inultrapassáveis pela intolerância.

O amor acaba no dia em que nos fechamos na nossa torre, recusando percorrer metade do caminho que nos separa, esperando que o príncipe escale a parede. Não há uma gota de amor nos cabelos da Rapunzel [1]. O amor do príncipe é improdutivo; resvala pela parede abaixo.

Tudo o que diz respeito ao amor é um desperdício de tempo — e de dinheiro, frequentemente. Amar é caro. Há opções mais baratas. A solução para todos os problemas repousa nos braços duma mulher a crédito.

Outro desperdício de tempo e de dinheiro é ir àqueles jantares contumazes, em que somos obrigados a gostar dos amigos. Pior do que os jantares, só o cafèzinho da praxe. Era entornar-lhes uma chávena de café quente pela cabeça abaixo! A todos!

Isto é uma carta de amor atípica. Não quero dizer-te palavras bonitas. Antes de mim, já muitos tas disseram, provavelmente melhor tecidas do que eu alguma vez poderia almejar, e, no entanto, Penélope encarregou-se delas. Não tenho para te dar, mais do que já te foi oferecido numa salva de prata e tu recusaste, em teu supremo esplendor.