Por Gustavo Martins-Coelho


Podemos falar? Ouve-me, pois é rápido. Só quero fazer-te uma pergunta. Coisa pouca, para não te tomar muito tempo. O quilo de tempo está pela hora da morte.

Eis a pergunta: queres ser minha para sempre?

Simples, não é? Sim (de preferência) ou não.

Casar, ter filhos, esses clichês…

Podemos ser medianamente felizes, um ao lado do outro, concentrando-nos mais e mais nos defeitos e menos e menos nas qualidades de cada um a cada dia que passar, até ao fim das nossas vidas, perguntando-nos a cada passo o que fizemos de errado para merecer esta cruz.

Podemos passear ao Domingo no centro comercial, olhando para outros casais medianamente felizes com os quais nos cruzaremos, imaginando-lhes vidas incomensuravelmente mais interessantes do que a nossa enfadonha existência emparelhada e cobiçando-lhes a nossa imaginação, sem nos darmos conta de que também eles atingem o pináculo da sua felicidade conjugal no mesmo passeio domingueiro no centro comercial.

Podemos distanciar-nos progressivamente, diariamente, em pequenos mal-entendidos e grandes subentendidos, até construirmos entre nós uma muralha da China de incompreensão e incomunicabilidade.

Podemos esconder-nos no trabalho, para evitarmos uma casa vazia.

Podemos contar esperançosamente o dinheiro que poupámos, para saber se podemos comprar um carro novo, e vermos que vamos continuar a partilhar o velho.

Podemos viver uma vida pacata de família de classe média, com direito a telemóvel de última geração e televisão no quarto.

Podemos fazer da televisão a única fonte de entretenimento no resto da semana, pois, ao Domingo, entretemo-nos no centro comercial, mas sem nada comprar, porque temos de poupar para o carro novo.

É isto que tenho para te oferecer. Mesmo que te prometesse ser o teu príncipe encantado, os encantamentos desvanecem-se depois da meia-noite. É melhor saberes já o que te espera. Já o disse [1]: sem expectativas, não há lugar para a desilusão. É uma fórmula simples.

Queres ser minha para sempre? Não queres.

Já adivinhava, mas a verbalização, a concretização, cai sempre com o estardalhaço do penedo que cai na lagoa. Faz barulho, chapinha tudo à volta e gera ondulação. O não é a fonte da entropia.

Eu sabia desde o início que este dia haveria de chegar, mas acho que nunca estamos verdadeiramente preparados para quando isso acontece. Respeitar a tua escolha não significa que concorde com ela, que ache que é a escolha certa e muito menos que ela me deixe feliz.

Sinto-me como quando reprovei pela primeira vez a uma cadeira. Foi preciso chegar à faculdade, para isso suceder; até lá, fui sempre bom aluno. O melhor da minha turma, por muita comichão que fazer tal afirmação possa causar — e fez, da primeira vez em que a proferi. Ser humilde é bonito; fica bem. Mas o excesso de humildade, a humildade que contraria os factos, é apenas mais uma forma de vaidade. Um aluno tem sistematicamente as melhores notas de toda a turma, em todos os testes e no final de cada período lectivo, mas, se constata o óbvio em público, é apodado de arrogante! O Félix [2] diria logo, só para achincalhar:

— A criatura acha-se a última bolacha do pacote, mas na verdade é aquele farelo que sobra e ninguém come.

Do que ele se esquece é que toda a gente come o farelo do fundo do pacote, só que ninguém admite.

Na faculdade, em boa verdade, não se reprova — é-se excluído. O meu primeiro exame, na faculdade, foi o de Anatomia. A minha primeira exclusão foi no exame de Anatomia. Excluído! Reprovado!

Eu sabia que ia ser excluído. Anatomia é difícil, estudando; impossível, sem estudar. Eu não tinha estudado. Reprovei. Há justiça, no mundo.