Por Hélder Oliveira Coelho


Há quase uma década, sentava-me pela primeira vez ao microfone da rádio. Escrevi sobre liderança, sem saber que o fazia. Acabava de ser eleito nos EUA um novo presidente. Soa a déjà-vu. Eleições são coisas que acontecem sazonalmente. Para o bem e para o mal. Recordo-me de ter dito que duvidava de que se tivesse eleito um salvador do mundo, como tantos faziam crer à época.

Reforço a ideia de que eu estava correcto. Obama não foi o príncipe encantado das arábias que veio trazer o bem e a prosperidade ao mundo que governava.

De igual modo, devo reconhecer que Obama foi, por certo, dos mais carismáticos e extraordinários líderes do mundo actual.

Este Janeiro de 2017 ceifou o corpo de outro líder. Nunca fui um socialista, nem tão pouco um soarista. Factos que me deixam perfeitamente à vontade para escrever livremente sobre ambos, de forma insuspeita.

O presidente Mário Soares foi, sem dúvida, um líder. Na história do século XX português, ressaltam dois nomes contrastantes: Salazar e Soares.

Salazar personifica a sombra e o atraso, Soares a liberdade e o progresso. A quente — quarenta anos de democracia, num país com nove séculos de História, podem com segurança deixar-me usar a expressão: «escrever história a quente». Recordo, para o efeito, o facto do busto de Carvalho e Melo ter sido retirado da base da escultura equestre de D. José e tardado oitenta anos a voltar para o lugar de onde se retirou, porque o poder de então quis apagar a memória do ditador. O tempo veio a clarificar que o ditador também teve coisas boas.

Para não falar já da mais importante rotunda da cidade de Lisboa ter Pombal por epíteto, sem qualquer memória das atrocidades que cometeu. Feita esta nota, os quarenta anos soam a quente. Salazar e Soares, ambos foram homens que lideraram o País. A mim, pessoalmente, custa dizer que o primeiro tenha sido um líder. Haverá outros que pensarão o contrário. Ressalvo que, sem o segundo, não seria possível ter a leveza com que escrevo e falo hoje, sem medo de pequenos ou grandes déspotas.

Parece errático este meu raciocínio. Todavia, posso demonstrar-vos que não é. Salazar subiu ao poder fruto duma revolução. Outros chefes mundiais foram eleitos — mesmo sendo ditadores, foram eleitos. Soares marcou a minha existência já sem poder executivo. Contudo, nunca assumiu uma presença senatorial. Até eu o critiquei ferozmente. Hoje, reconheço-lhe valor e defeitos. Como deve ocorrer com os grandes líderes. Reconhecer que são Homens. Que decidem e que se enganam. Que vencem e que perdem.

Obama foi eleito. O mesmo povo que foi capaz de o eleger elege agora um homem que se veste de tiques salazarentos. Ou pombalinos, se quiserem ser justos. Temo, no entanto, que haja diferenças na substância. Salazar ou Pombal eram homens com uma ideia e uma visão do mundo que consagrava um projecto maior do que eles próprios. Podemos discordar da forma e do conteúdo, mas não podemos negar que era um projecto cuja designação seria superior ao ego do chefe. Hoje, um homem eleito tem o umbigo a tolher-lhe as ideias. Esse homem eleito tem poder executivo. É bom não esquecer.

Este ano, a rainha Isabel de Inglaterra fez, como habitual, uma mensagem de fim de ano. Eu sei que a rainha não foi eleita. Também sei que não tem poder executivo. Mesmo assim, escutei-a. Conheceu dezenas de chefes e líderes mundiais. Passou por todos eles e atrevo-me a dizer que aprendeu. Nesta mensagem, a rainha referiu o facto de, ao longo destes sessenta anos, ter visto muitos heróis do reino serem medalhados; e, depois, referiu-se a todos os que não são medalhados. A todos os heróis silenciosos que diariamente mudam as pequenas coisas do mundo, sem voz e sem fama. Esses heróis que fazem o mundo andar, com resiliência e persistência. Confessou-se orgulhosa de todos esses heróis. Os homens comuns que fazem da vida comum algo tão belo e extraordinário.

Num mundo que espera por príncipes e salvadores, num mundo de guerras de ego e de fé no capital, no mundo em que os valores são os do lucro e o Homem é uma peça descartável, nesse mundo de príncipes e líderes, a rainha diz sentir orgulho nos Homens comuns.

O homem comum que acaba de abandonar a Casa Branca mostrou ser um grande líder. O homem comum Soares também. O homem comum que agora chega parece ser extraordinário, em toda a dimensão nefasta que a palavra pode ter.

A Disney tem sabido retratar contos de fadas que pouco se aproximam da realidade. Aladino, homem comum que, por artes de génio, chega a príncipe. Do musical Aladino, onde a força de carácter mostra ter mais força do que o ouro e o poder. Prince Ali.