Nota do editor: este artigo é um resumo do texto do Enrique Krauze, publicado no «El País» [1]


A ascensão de Hitler parecia impensável na terra de Goethe, Schiller, Bach, Beethoven, Kant e Hegel, mas aconteceu e, ao longo de doze anos, causou cem milhões de mortes e uma devastação sem precedentes. Agora, um fascista chegou à Casa Branca e ninguém sabe quanto sangue, suor e lágrimas custará ao mundo.

Desenganemo-nos. Os EUA são muito mais do que as costas do Atlântico e do Pacífico, lares da cultura e da integração: neles existem também o centro e o sul, lar do fascismo. Os EUA deixaram para trás a escravatura, mas não o racismo, sempre latente, por exemplo, em películas cinematográficas aparentemente inocentes, como os westerns. O imperialismo ressurgiu, para dentro (contra as minorias étnicas) e para fora (tratando de humilhar o México). As expressões narcisistas, xenófobas e violentas são muito mais do que um sintoma alarmante, mas curável, duma sociedade que resistiria aos embates da barbárie: antes representam metade da sua população. O fanatismo religioso não acabou no século XVII; e a razão, a ciência e a verdade objectiva não são conquistas irrevogáveis. É óbvio que os EUA possuem qualidade prodigiosas, mas equivocámo-nos ao ignorar o núcleo duro, xenófobo, sexista, fundamentalista, reaccionário, irracional e histérico da alma americana.

Estávamos convictos de que a democracia americana era imune à ditadura, até que um tirano chegou à Casa Branca e ameaça destruir a obra dos Pais Fundadores. Enganámo-nos, não porque não exista o lado luminoso dos EUA, mas porque não quisemos ver o seu lado escuro; e esse lado escuro encarnou em Donald Trump.

Agora, tudo pode acontecer; resta-nos confiar — nos limites e equilíbrios de poder entre legislaturas, juízes e estados; na crítica da comunicação social e das redes sociais; e na mobilização dos cidadãos, das mulheres e das minorias. Confiemos no papel da Europa na defesa da democracia liberal.

Nesta luta pela liberdade, aos países da América Latina cabe mostrar ao americano bom que não está só e ao americano fechado e hostil que (com todas as nossas misérias e injustiças), os nossos povos têm muito que lhe ensinar em termos de valores e humanidade.