Por Gustavo Martins-Coelho


Eu não vou pedir desculpa por coisa nenhuma, muito menos por ser arrogante; até porque desconfio que ninguém pede desculpa genuinamente. Um pedido de desculpas não é um pedido de absolvição, mas antes um pedido de compreensão.

— Desculpa. Mas não me perdoes. Não preciso do teu perdão; só quero que compreendas a minha escolha, os meus motivos, e que me digas que está tudo bem, para eu poder afugentar esta culpa, que me tolhe.

Ninguém pede desculpa, esperando ouvir descrever os danos que causou; ninguém aceita um «não desculpo» como resposta; ninguém entende que o primeiro passo para ser desculpado é achar que precisa de sê-lo. Então, a pessoa que se magoou no processo, o palerma que anda a lamber as feridas, ainda é apodado de quezilento, de pouco ponderado, de intolerante, de egocêntrico… E, de repente, inesperadamente, o jogo vira ao contrário, os papéis invertem-se e as desculpas são devidas em sentido inverso.

— Desculpa por ter ficado magoado com o que me fizeste. Desculpa não te desculpar.

Pedir desculpa é, no fundo, um acto de orgulho. Mas o orgulho nunca resolve o que quer que seja. Não peças desculpa se não sentires verdadeiramente que erraste, se não estiveres verdadeiramente arrependido do erro, e se não estiveres disposto a aceitar que o outro lado da rua recuse, ao mesmo tempo que te diz:

— Magoaste-me mais do que consigo (ou estou disposto a) aguentar, neste momento. Não está tudo bem e não sei, no futuro, voltará a estar. Sei somente que, até a dor passar, não consigo olhar para ti da mesma maneira; e não sei se alguma vez voltarei a ser capaz de o fazer.

«And I love you a little less than before.» Às vezes, James Morrison faz sentido. Mas só às vezes. A cultura pop tem de ser popular e o povo raramente faz sentido — sobretudo, se se tratar de sentido único.

Mas não tem de ser assim. Quando pensava que toda a esperança estava perdida, entraste na minha vida. Ainda me lembro de como a definiste numa só palavra; e da forma como a pronunciaste! Metade do encanto veio da forma como a pronunciaste.

— As apojaturas são extrassístoles musicais.

Sabes que encontraste o amor da tua vida, quando tens à tua frente um café com natas que faz melhores metáforas do que tu.

És linda. Tens um sorriso enigmático, de alegria sobreposta de tristeza indefinível. Os teus olhos dizem verdades ocultas, enquanto perscrutam horizontes indecifráveis. A tua pele, macia como seda, é da alvura da neve, sombreada a pinceladas da cor das rosas, que te enchem de vida. A tua boca, de lábios vermelhos apetecíveis, é um fruto fresco. O teu corpo inebria de curvas que quero circundar. Quero beijar-te com furor apaixonado. Quero submeter-me a ti, minha rainha, em vidas de vassalagem de desejo do tudo que és para mim. Quero tocar-te como nunca antes te tocaram. Quero sonhar-te acordado e adormecer-te em mim.

Um parágrafo inteiro.

Gosta de mim, pá! É pedir muito?!

Prático.

Amaste-me, alguma vez? Não precisas de me responder; o Bernardo Soares fê-lo por ti, com mais verdade:

Nunca amamos alguém. Amamos, tão-somente, a ideia que fazemos de alguém. É a um conceito nosso — em suma, é a nós mesmos — que amamos.

Isto é verdade em toda a escala do amor. No amor sexual buscamos um prazer nosso dado por intermédio de um corpo estranho. No amor diferente do sexual, buscamos um prazer nosso dado por intermédio de uma ideia nossa. O onanista é abjecto, mas em exacta verdade, o onanista é a perfeita expressão lógica do amoroso. É o único que não disfarça nem se engana.