Por Hélder Oliveira Coelho


Já falei por duas vezes da mulher de César. Já falei até do próprio César [1]. Nunca falei da menina bem. A menina bem teve uma educação esmerada. Pois que parece fútil, mas em bom rigor é só aparência. A menina bem tem grande profundidade em tudo o que diz e faz. Profunda não só na garganta, mas também na alma. Todos lhe conhecem a habilidade para aguentar a demanda mundana. A menina bem tem preocupações sociais. Lê muito, mas autores que ninguém conhece. Escreve mais, mas coisas que ninguém lê! Como gosta de dar opinião, mas que ninguém ouve! Quantas vezes ela opina! Quantas vezes ela ao ó tira o sufixo. A menina contribui para o sucesso da sociedade. Mesmo assim, todos a criticam. Como podem fazer tal coisa, se a menina bem é tão boa!?

O problema das meninas bem é que vendem mal a sua imagem. Tira-se-lhe o bem e são só meninas. Ficam vazias e despidas. Pior é que se constipam. Oh, que injustiça! Ver tanta formosura constipada! Mal de nós, que não distinguimos as formosas e seguras das que só se querem mostrar!

Mudando de assunto, porque pouco mais me ocorre poder ser dito sobre meninas bem, falemos agora de coisas mundanas. Coisas da urbe.

Tenho visitado com frequência o Museu da Cidade [2]. Era um lugar respeitável. Um sítio onde a meia dúzia de meninas bem gostavam de se ir mostrar. Lá estou eu de novo…

O Museu, dizia, passou pelo ultraje de deixar de ser coisa do Estado central, para passar ao município. Ora, o município? Que grande despromoção!

Então deixar o Estado para passar a ser parte do… Estado!

Afinal, o município também é Estado! Mas claro… há o estado do mundo… claramente representado pelo poder municipal, conquista forte do republicanismo, que se queria igualitário e limitador Das classes privilegiadas.

Depois, há o estado das meninas bem. O estado do bem-parecer. O estado cinzento, respeitador e obscuro, como era o museu antes de, por coincidência ou sorte, passar do Estado de bem para o Estado municipal. Contudo, as meninas bem sentiram que deixavam de poder fazer brilhar os seus vestidos. Agora, o cinzento abriu, aclarou, fez-se luminoso.

Agora, os vestidos das meninas bem são ofuscados pela arte alheia.

Agora, brilham exposições temporárias de renome nacional que abrilhantam as peças da colecção permanente, com que entram em diálogo. Diálogo que não abre portas às meninas bem… das conversas fúteis e inúteis… as meninas que gostam de mostrar como eram boazinhas e como, sem elas, nada se fazia. Ai de nós, se não fosse pelas meninas bem!

Houve um Estado que deixou colecções de valor incalculável fugir do acervo daquele museu, o cinzento. Depois, há um Estado que tenta a todo o custo que se cresça e recuperem os últimos trinta anos perdidos.

Enfim… Os homens do mundo, as meninas de bem… a dialética interminável de duas visões da vida! O progresso e o bem parecer. Uma memória construtiva e o obsoleto. A riqueza comum e o ego nefasto. Todo um mar de contrastes! Como a própria imagem garante, um mar que tem momentos de maré cheia, outros em que está vazia. Mas um mar que certamente abre portas a uma grande riqueza: a cultura!

Gosto de visitar o museu!

Termino hoje, como não poderia deixar de ser, com uma canção que foi um grande sucesso no ano de 1956, no auge do salazarismo: «A menina bem», versos de Jerónimo Bragança, música de Eduardo Loureiro, na voz da eterna vedeta Maria José Valério.