Nota do editor: este artigo é um resumo de parte do artigo da Jay Griffiths, publicado na «Aeon» [1]


Tal como os libertários contemporâneos, também os futuristas italianos se viam como rebeldes contra a tradição política e artística, orientados para o futuro, odiando o passado e promovendo o primado do artificial sobre o natural.

O ruído era privilegiado pelos futuristas: a música como ruído, o discurso como gritaria, o design como choque visual; a língua liberta (purificada) da gramática (ignorando que, sem gramática, não há significado). Os futuristas, como qualquer bom fascista, queriam queimar bibliotecas, museus e academias. Estas ideias eram acompanhadas duma relação especial com a verdade, semelhante à que a alt-right tem actualmente com os factos. Embora a queima de livros promovida pelos fascismo seja uma coisa do passado, a disseminação de mentiras da era da pós-verdade que vivemos é-lhe em tudo equivalente. Os libertários querem criar um mundo anti-intelectual, destruindo o conceito de «perito» e abrindo condições ao florescimento do fascismo a partir da ignorância.

A ideia fundamental do manifesto futurista era a adoração da máquina, como veículo de triunfo da humanidade sobre a natureza. Os libertários e a alt-right têm o mesmo tipo de biofobia, fazendo dos ambientalistas o seu inimigo número um [2], desdenhando a sustentabilidade e opondo-se às leis de protecção ambiental. A solução para a destruição do ambiente é a colonização espacial. O Donald Trump defende-a, o Elon Musk pretende concretizá-la; e os futuristas sonhavam com ela: com a tecnologia disponível à época, desenvolveram a aeropittura, como forma de se libertarem a realidade a partir da perspectiva terrestre.

A ideia do ar e do espaço serve de metáfora à liberdade desejada pelos libertários. No ar, podemos libertar-nos da Terra húmida e exsudativa e atingir a nossa natureza superior, invencível, de Übermensch.

Os cientistas achavam que a verdade seria a sua própria embaixatriz. Mas não é.