Por Gustavo Martins-Coelho


Foste uma flor inexplicável que passou por mim e deixou ficar aquela canção. Ao ouvi-la, vens-me sempre à memória. Criaste memórias em mim, saídas do teu mel. Ao ouvir aquela canção, vens-me sempre à memória. Sempre. Causa e efeito. O mecanismo dum relógio.

Era apenas o momento errado. Choravas quando fazíamos amor. A canção, sempre a canção. E as tuas lágrimas. Tudo tão verdadeiro, tudo tão inexistente.

Exististe? Existimos?

O diário da tua ausência escreve-se com lágrimas de orvalho.

Não te entendo. Tu falas por criptogramas e eu não tenho jeito para palavras cruzadas.

Mas tornaste o meu mundo perfeito; e levaste-o contigo; e ele não mais existiu fora de mim.

Exististe?

Existimos?

Por breves momentos, senti que existíamos em Paris.

Queria levar-te a Paris. Dizem que é a cidade dos apaixonados. Esquecem-se de que também é a cidade dos que não estão apaixonados. É a cidade de toda a gente. A vida parece melhor com a Torre Eiffel ao fundo. Qualquer vida. Uma selfie em Paris é diferente de todas as outras. Para já, porque se há-de pronunciar de maneira diferente. Nunca ouvi um parisiense a dizer «selfie», mas decerto o fará duma forma incompreensível para qualquer que fale Inglês.

Queria levar-te a Paris. Não sei donde veio a ideia. Talvez por seres um clichê cinematográfico. Surgiu do nada, assim… Ocupou-me, por impulso. Queria que fosses minha em Paris. Nunca estivera apaixonado em Paris.

Quem disse que a pornografia não pode ser educativa?

Eu sou tudo menos crescido. Aliás, creio que um adjectivo aplicável ao bacalhau é despropositado para me descrever.

Sou uma série de promessas por cumprir.

O que mais é preciso para que oiças o meu grito?

Gostava de que o que escrevo fizesse sentido. Mas o que escrevo são somente dias passados e o passado não é mais do que uma sucessão de sucessos sem sentido que sucedem sucessivamente sem cessar. Ensinou-me a minha mãe.

São dias passados da vida; e não se pode pedir à vida que faça sentido, quando ela é incapaz de sentir seja o que for.

Acordo antes do despertador tocar. Mas não me levanto sem que antes ele toque duas vezes, tal como o carteiro (que, em boa verdade, nunca vi tocar uma, sequer).

Não gosto de obrigações. Quero cavalgar livremente pelas planícies verdejantes, sem cercas que me cerceiem. Riscar livremente a folha de papel branco, sem réguas que me regulem. Escrever livremente nas paredes, sem escantilhões que me coarctem. Traçar círculos quadrados no chão e neles jogar a macaca. Começar vidas inacabadas.

São tantas as coisas que começam e não acabam. Ficam pelo caminho, pelos mais diversos motivos. Na maior parte das vezes, nem sequer têm direito a um enterro condigno. Só ficam. Perduram no éter. É mais fácil sofrer do que ser feliz; e mais prolongado; e notório. A amígdala é mais sensível à tristeza do que à alegria.

A Alegria está no Circo do Sol.

Alegria
Como a luz da vida
Alegria
Como um palhaço que grita
Alegria
Do estupendo grito
Da tristeza louca
Serena
Como a raiva de amar
Alegria
Como um assalto de felicidade

Quero acabar o que já está acabado e não consigo. Burilo, burilo, burilo — e quebro a essência. Às vezes, duas frases articulavam-se num parágrafo.

Há muita coisa que poderia dizer-te, mas não saberia por onde começar. Existe um vazio dentro de mim, que nasce no meu âmago e, como um buraco negro, tudo suga à sua volta. É um vazio cheio de nada, igual ao que sinto depois de te possuir. Sento-me ao teu lado, em silêncio, para não te acordar do sonho em que vives mergulhada. Quero-te, mas não te amo, porque o amor vem da alma; e a minha há muito foi vendida, retalhada, esfrangalhada.