Por Hélder Oliveira Coelho


Ora, a dialética em que vivemos podia ser uma bela comédia, se não fosse tão desgraçada. Já tive oportunidade de escrever o quanto a ciência funciona actualmente como Bíblia ou Corão dos homens de pouca fé. É sempre um exercício divertido observar até onde vai a tontice humana. Em suma, a falta de bom senso. As coisas mundanas e as verdades passam em segundos de beatas a profanas e vice-versa. Encontra-se de tudo para provar tudo. Basta que haja vontade e produz-se um estudo. Eu já sofri dessa maleita. Lembro-me dos anos de adolescência, em que, quando queria fazer valer o meu parecer junto da vontade majestática dos meus pais, interpelava com a frase:

— Está estaticamente provado que…

Atente-se que o estatisticamente poderia ser substituído por cientificamente. O meu pai, que é um homem pragmático, respondia:

— A estatística é muito bonita, mas se eu comer dois frangos e tu não comeres nenhum, estatisticamente comemos um frango cada um e tu vais para a cama com fome. A conversa terminava sempre por ali e o argumento da autoridade funcionava.

Durante anos, interpretei o argumento de autoridade como um dos maiores erros da humanidade informada e culta. Como podia o cérebro humano deixar-se enganar por tão elementar falha? Um dia (e porque já há muito tempo que não falo do tema Festival da Canção [1], vou mostrar como já me foi útil muitas vezes…) — dizia eu: um dia, estava sentado a jantar numa esplanada em Sesimbra com primos. Eis que surge uma concorrente ao Festival da Canção com aquilo que eu interpretei como hirsutismo. Segue-se uma aula teórica à mesa, a explicar o sucedido, até que, um plano de câmara mais apertado me mostra o que a minha miopia não me deixara ver… era um cavalheiro! Exclamo:

— Mas, afinal, é um travesti!

O silêncio da mesa cessa com uma gargalhada geral. Eu tinha sido o único que não viu que se trataria dum homem. Quando pergunto aos meus familiares por que ninguém me corrigiu, a resposta deixou-me ainda mais perplexo.

— Como foste tu a dizer, nós achamos que devias ter razão.

Para quem não sabe, eu sou médico e finjo que faço ciência nos tempos livres. Factos que, ao que parece, me deram alguma autoridade, para que não se duvidasse de mim naquele contexto. Foi a primeira vez na vida que entendi como poderia não existir qualquer malícia na assunção do argumento da autoridade. Mais tarde, por força maior, vejo-me a pensar: se alguém como o Professor Serrão, que este ano nos deixou, mas que eu ainda tive a oportunidade de ver discursar no congresso europeu da especialidade, se ele dissesse algo, por mais inverosímil que me soasse, eu demoraria a pôr em causa. Falando nele, fazer a nota que tudo tem uma história. Se, hoje, nomes como Sobrinho Simões ou Fátima Carneiro são consagrados na medicina mundial, é importante lembrar que são discípulos do Professor Serrão.

Mas, voltando à autoridade, quem se atreveria a contestar gratuitamente, sem fortíssimas bases que o sustentem, afirmações categóricas de nomes como Daniel Serrão, Sobrinho Simões, Pasteur, Curie, entre tantos outros consagrados? Por que razão? Ora pois, é verdade que a autoridade por si só não garante a veracidade do que se diz. Contudo, pode bem apontar para uma forte probabilidade. Só por força maior de razão. Também estou em crer que, se gente como a que cito se visse confrontada com a negação do que defenderam, seriam os primeiros a querer ler e confirmar as provas que se lhes quisessem apresentar. Provavelmente, é daí que lhes vem a autoridade. Cedem à argumentação lógica, mais do que à sua própria eminência.

Nesta realidade de consumo imediato, há que amar e odiar a um ritmo frenético. Ao ponto de gerar situações ora ridículas, ora verdadeiramente perigosas. Como não sou um homem de papaguear sem me sustentar, vamos a factos.

A mortalidade infantil em Portugal, nos anos 60 do século XX, rondava os 75 por mil por ano. Uma verdadeira tragédia. Em 1965, é introduzido o Programa Nacional de Vacinação. Espantem-se os senhores, quando vos disser que, dez anos depois, o valor caíra para metade. Ao longo das décadas que se seguiram, a queda foi de tal forma abrupta que, nos anos oitenta, quando nasci, Portugal estaria no mesmo patamar dalguns países desenvolvidos e hoje é uma autoridade com valores dignos de orgulho nacional, nos cinco melhores do mundo: três por mil crianças por ano.

É evidente que assumo a demagogia de aceitar que foi apenas a vacinação que fez a diferença. Obviamente não! Mas, que terá contribuído em muito, garantimos que sim.

Onde pegam estas histórias? Pois bem, ninguém tem o menor decoro a pôr em causa a dignidade e a legitimidade das conquistas da medicina pós-moderna e do último quartel do século XX. Sem qualquer base lógica e fiável. É o confronto com base na fé. Não numa argumentação lógica sustentada. É a guerra e o ataque à autoridade. Era bom que se pensasse melhor a este respeito.

Talvez as gerações de homens e mulheres que nos antecederam e contribuíram para que eu e tantos outros meninos como eu pudessem crescer saudáveis, talvez essa gente não tivesse nenhum plano maquiavélico para dominar o mundo.

Talvez fossem apenas homens de bem, que queriam ver os filhos e os netos a crescer num mundo melhor e com mais saúde. Talvez as vacinas não servissem para incorporar microchips para dominar o nosso pensamento, mas antes fossem apenas um instrumento de salvação de vidas.

As minhas avós viram filhos morrer em idades em que deveriam estar a brincar na rua, por causas que hoje seriam absolutamente preveníveis. Graças a Deus e ao contributo da ciência, a minha mãe e as minhas tias não tiveram de passar pelo mesmo pesadelo. Talvez por isso, não passasse pela cabeça da minha avó ou da minha mãe que as vacinas eram uma coisa má. Nenhuma das mulheres que cito tinha um doutoramento… mas quem precisa disso, em temas que se regem apenas pelo bom senso?!

Talvez não seja a conspiração a dominar a sociedade, mas antes a estupidez generalizada e falta de bom senso!

Deixo-vos então com a canção vencedora do Festival Eurovisão da canção de 2014. Rise like a Phoenix. Com votos de que o sarampo e a tosse convulsa [2] não surjam das cinzas para matar mais crianças!