Por Gustavo Martins-Coelho


O Blasfémias [1] publicou, já nos idos de 2010, um texto intitulado «Uma experiência socialista» [2]. Para um blogue cuja divisa afirma que «a blasfémia é a melhor defesa contra o estado geral de bovinidade», publicar um texto que se recebeu por correio electrónico, de forma totalmente acrítica, é, pelo menos, incoerente. Mas adiante!

O texto já tem, pois, alguns anos, mas não deixa de ser didáctico, pelo que me vou dar ao trabalho de o analisar. Sugiro ao leitor que comece por ler a redacção original, no Blasfémias [2], antes de prosseguir a leitura por estas bandas, sob pena da mesma lhe não aproveitar.

O primeiro problema da metáfora, ou fábula, é a sua questionável veracidade. Não há outras referências ao facto, para além de blogues que dizem que receberam a história por correio electrónico (eu mesmo a recebi, há uns anos, também). Este seria um problema de somenos, não fora a história ser totalmente irrealista. Afinal, há muitos contos, muitas parábolas e muitas fábulas que também nunca aconteceram e que não deixam de se justificar, pela moral que transmitem. A Bíblia está cheia delas, tal como os livros dos escritores Esopo e La Fontaine.

Então, o segundo problema da história do professor e da sua turma socialista deriva do primeiro e é a total contradição com a realidade: o que nos é relatado, além de nunca ter acontecido, não poderia ter acontecido jamais. Quem nunca esteve num trabalho de grupo, na escola ou na universidade, em que um (ou mais) elemento(s) não contribuía(m) minimamente para o trabalho do grupo (para não dizer que não faziam a ponta dum chavelho)? Eu estive em vários, os mais recentes dos quais há uns meros dois anos, num curso que fiz em Lisboa; e em todos esses trabalhos de grupo, desde o ensino básico até à pós-graduação, sempre o meu grupo passou e com boa nota, graças aos mais aplicados, que fizeram a sua parte — e a dos cábulas. Decerto, não era uma turma inteira, mas era um grupo de trabalho, às vezes com quase tantos elementos quanto uma turma pequena. Penso que o princípio também se aplica, não?

Além disso, o terceiro problema da história é a sua generalizabilidade: a lógica do efeito negativo da partilha dos resultados também se deveria aplicar fora da academia, para que esta história tenha qualquer valor político que vá além do entretenimento; ela pretende ser uma metáfora da vida real e a prova cabal de que o socialismo não pode funcionar na realidade. Então, por exemplo, a mesma lógica deveria ser aplicável a uma equipa de onze futebolistas, em que uns jogam melhor do que outros, inevitavelmente, e uns suam mais a camisola do que outros, também naturalmente; mas, no final do jogo, ganham todos o mesmo número de pontos — zero, um ou três. O nível de todas as equipas a nível mundial tem-se degradado progressivamente, por causa disso, certo?…

O quarto problema é que a história não diz respeito ao socialismo. O socialismo não consiste em tornar todos iguais à força, pela via da redução da compensação pelos resultados individuais a uma média igual para todos, como a história pretende fazer crer ao leitor. O socialismo consiste, outrossim, em dividir a propriedade dos meios de produção por todos, em vez de a concentrar numa oligarquia (que, no mundo presente, é quase aristocrática [3]) que aufere todo o lucro resultante do trabalho de terceiros. O socialismo é cooperação, igualdade de oportunidades, partilha de sacrifícios e compensação justa.

O quinto problema da experiência relatada é metodológico: o agente da experiência participava da mesma, simultaneamente tendo fortes convicções próprias quanto aos resultados esperados e dispondo dos instrumentos para produzir esses resultados. Ou seja, nada nos garante que a razão que levou a turma toda a reprovar não foi meramente o professor ter aumentado progressivamente o grau de dificuldade dos exames, exactamente com o intuito de provar o que queria provar: que uma turma socialista reprovaria, no fim do ano.

O sexto problema é que a história é cientificamente falsa: todos os estudos científicos sobre o assunto demonstraram precisamente o contrário do que é relatado — os trabalhos de grupo melhoram os resultados individuais dos alunos, a sua produtividade e a sua aprendizagem. Os bons alunos mantêm as boas notas e os maus alunos melhoram as suas. Podemos inventar as metáforas políticas que quisermos, mas a realidade sempre prevalece.

Portanto, resumindo e concluindo, esta é uma história sem pés nem cabeça, provavelmente inventada por uma direita não muito esperta, que nem sequer bons argumentos é capaz de fabricar. É uma experiência socialista resultante duma inexperiência argumentativa atroz.