Por Gustavo Martins-Coelho


Resumir é viver um ano em dois meses. Dois meses numa semana. Comprimir, comprimir, até não mais ser possível e tudo explodir.

Não sei, não imagino onde isto me vai levar, mas sinto o fim próximo. Um fim anunciado, que tarda em concretizar-se; um fim nunca presente, eternamente adiado num futuro convexo.

Ao meu lado, o mundo acorda num ventilador, para logo voltar a adormecer. Só eu tenho consciência da verdade: a verdade não existe.

Sou feliz por ser infeliz contigo. Fazes parte de mim. Sai! Fica!

Amanhã, vou esquecer que existes e vou buscar a infelicidade a outro lado qualquer. Mas hoje, vou fechar os olhos e não quero abri-los mais. São três da manhã e preciso de ti de mais maneiras do que possas imaginar.

Talvez não sejas egoísta. Talvez o teu mal seja meramente egocentrismo. O egoísta só se preocupa consigo e com o seu bem-estar. O egocêntrico acha que o mundo gira à sua volta. São coisas muito diferentes.

O egoísta pode ou não ser egocêntrico.

O egocêntrico pode ser egoísta, mas pode também ser altruísta. O egocêntrico egoísta acha que o mundo existe para o satisfazer. O egocêntrico altruísta crê que o mundo não sobreviveria sem a sua abnegação e a sua boa vontade. O seu maior desapontamento é descobrir que, muito provavelmente, ninguém daria pela sua falta. Os pobres seriam os mesmos.

Não sou egocêntrico: tenho consciência de que faço tanta falta ao mundo, que, se morresse hoje, o mundo só daria conta quando o vizinho do lado começasse a achar o cheiro a cadáver insuportável [1]. Ou nem isso, se me calhasse viver e morrer ao lado dum vizinho anósmico. Poderia viver anos, falecido entre quatro paredes, sem ser notado.

Não quero mais falar contigo. As palavras são tijolos que se erguem num muro que nos separa em Berlim.

O meu professor dizia que as famílias felizes são as que albergam mais infelicidade [2]. Eu acreditava ter percebido o que ele queria dizer, mas, agora que percebi verdadeiramente, entendi que andei anos sem saber a verdade.

As famílias felizes albergam as pessoas mais infelizes. Pessoas infelizes, que não podem extravasar — sequer mencionar — a sua infelicidade, para não causar a infelicidade da família. A família é feliz, à custa da infelicidade individual dos que a compõem. A infelicidade é a roldana da engrenagem da felicidade.

As famílias felizes são as famílias em que o pai, a mãe, os filhos, os avós recalcam a sua infelicidade. A infelicidade individual não prejudica a felicidade global.

Se o País pode estar melhor, quando os Portugueses estão pior [3], então também é possível nós sermos felizes. Eu vou ser infeliz, para que nós sejamos felizes.

O amor é um jogo de equilíbrio.

Amar é entregar-se incondicionalmente à pessoa amada.

in·con·di·ci·o·nal·men·te

(incondicional + -mente)

advérbio

De modo incondicional. [4]

in·con·di·ci·o·nal

(in- + condicional)

adjectivo de dois géneros

1. Que não depende de condições. ≠ CONDICIONAL

2. Sem restrições.

3. Discricionário. [5]

Quando amas alguém verdadeiramente, és capaz de tudo, pela pessoa amada. Tudo, mesmo. Inclusivamente, de abdicar de tudo. Ao mesmo tempo, quem te ama também se te entrega incondicionalmente, também é capaz de tudo por ti. Mas, acima de tudo, amar é querer a felicidade e o bem-estar do amado. Mesmo sabendo que ele seria capaz de satisfazer o teu mais ínfimo capricho, apenas pelo prazer de te ver feliz, coíbes-te de lho demandar, pois também tu queres o seu bem-estar e tens consciência do quão caprichosa és. Amar é abdicar de exigir ser amado. Amar é saber sentir-se amado porque sim. Amar é ter a certeza, sem pedir provas.