Por Gustavo Martins-Coelho


Bem sei que tudo não passa duma salada de agrafadores incompreensíveis. Frases soltas, que se unem para fazer textos anódinos, que não merecem ser lidos. Mas presumo deles mais do que lhes dei. Os filhos de cada um são sempre os melhores do mundo.

Se,
em vez de escrever tudo
na mesma linha,
paragrafasse e trans-
lineasse,
mesmo que não rimasse,
já poderia dizer-me poeta?

É que eu gostava mesmo de ser poeta!
É o meu objectivo.
Ou, em Inglês, para ser mais chique:
it’s my purpose.

A palavra «purpose» deu-me o amor. Digo «purpose» e sou levado para aquela noite mágica, em que éramos duas almas inocentes, que não acreditavam na loucura que estavam timidamente a cometer. Ali voltei vezes sem conta, onde tudo começou — uma vez contigo; as restantes só. Contigo dentro de mim, não obstante. Levo-te sempre comigo, onde quer que vá.

Lembro-me, como se fosse hoje, do que dissemos um ao outro sem propósito, mas não consigo lembrar-me do que dissemos no regresso. Sei que chorei, ali ajoelhado, já sem ti, com a plena consciência de que aquele é o nosso espaço; sempre será. Tal como a canção.

Eu sei que fui embora e não mais voltei e que tu em vão esperaste o comboio das 7:30, que chegou pontualmente à estação, sem mim — um coração de metal sem alma no frio duma manhã cinzenta na cidade. Mas, apesar daquela cadeira vazia, sinto-te dentro de mim, a tua doce respiração entre os meus pensamentos dispersos. Apesar da distância que nos separa, o teu coração bate dentro de mim.

Pergunto-me se ainda pensas em mim, mesmo depois de há tanto tempo não falarmos; se te escondes como eu, se também não existes por trás dos olhares. Fechei-me no quarto e não quis comer, deixei-me preencher pelo teu cheiro no sofá da minha sala. Choro pelo mal que me faz a tua solidão.

Guardo a tua fotografia. Guardo todas as nossas fotografias. Tens os olhos da criança tímida que sempre foste e o meu coração sente que esses olhos estão aqui, enquanto me perco nas mundanalidades a que não posso eximir-me e me dizem que a monotonia dos dias que passam se resolve com o trabalho. Mas, se foi o trabalho que te levou para longe de mim, enquanto ainda estavas perto, sem que jamais me fosse pedida opinião!… Um dia, hás-de compreender. Mas será tarde. Para mim.

Pergunto-me se ainda pensas em mim, se falas de mim com carinho, se me guardas numa ponta do teu coração. Mas não é fácil, bem sei, recordar as tardes que passámos juntos; a fadiga dos dias não me deixa espaço para a ideia de ti.

Mas não é possível separar-nos, dividir as nossas vidas. Mesmo que te peça para esperares por mim, meu amor, estou somente a enganar-te (eu sei), porque a solidão é para nós o silêncio dentro de mim e a inquietude de viver sem ti. Mesmo que esperasses por mim, não é possível viver a nossa história sem a dividir por dois. Não sei viver sem ti. Mas não sei viver contigo. Resta a nossa solidão.

Oh! Não! Aconteceu de novo! A canção!

Acabaram recentemente esses dias memoráveis. A hora do almoço deixou saudade. Na praia, o sol brilhava para nós e para um chinelo gigante. Nada faria prever o desabamento que se seguiria. Mas o egoísmo interpôs-se, falou mais alto, gerou a injustiça.

Todas as pessoas desapontam, mais cedo ou mais tarde. Uma reacção momentânea irreflectida, uma frase mal construída, uma palavra pouco pensada, um regionalismo incompreensível… O meu melhor amigo é um imbecil que odeio.