Nota do editor: este artigo é um resumo do artigo da Natalie Nougayrède, publicado no «The Guardian» [1]


Pode parecer um paradoxo, mas é verdade: apesar do brexit [2], os Europeus nunca estiveram tão bem.

O brexit [3] é uma enorme perda, de consequências, certamente negativas, imprevisíveis, mas a Europa continua a ser um dos melhores sítios para viver. É por isso que poucos cidadãos emigram, mas muitos imigram; e é por isso que há mais países a querer aderir do que a querer sair. Isto pode parecer óbvio, mas os títulos sobre o brexit dão a entender que tudo vai mal. O próprio Reino Unido quer sair da UE, mas não da Europa [4], que continua a ser uma âncora de estabilidade, prosperidade e segurança.

Veja-se o que se passa fora da UE: os Russos fazem manifestações contra a corrupção e pela transparência, que acabam em intervenção policial e detenção dos manifestantes [5]; e, na ditadura bielorrussa, os desempregados vão passar a pagar imposto [6] e os manifestantes contra essa medida foram também presos [7].

É fácil tomar o que temos por adquirido e criticar as insuficiências da UE, mas é importante ver também o que a UE fez de bom e ver que muitos estrangeiros gostariam de ter o que temos.

A Europa tem valores. Nem sempre são observados, decerto [8, 9]; e nem sempre as suas próprias instituições são suficientemente democráticas. Mas esta é a única parte do mundo que conseguiu pôr em prática o respeito pelos direitos fundamentais, o pluralismo, a justiça social, a não discriminação, a protecção do ambiente e a segurança colectiva. Os Europeus são extremamente sortudos. Combinar quinhentos milhões de pessoas, 24 línguas e 28 países numa União e 19 países numa moeda é um dos maiores feitos políticos e económicos da modernidade [10]. A saída de 65 milhões de pessoas (metade delas contra a sua vontade) reduz a dimensão e a confiança da Europa, mas não será o seu fim.

Também não será a remoção do obstáculo a maior integração que foi o cepticismo britânico. A Frente Nacional francesa [11] é um obstáculo igualmente importante, como foram os referendos francês e holandês, que rejeitaram a Constituição europeia, há dez anos. A governança da zona euro também depende mais da França e da Alemanha não se porem de fora dos critérios de estabilidade acordados.

A UE não está no seu leito de morte; está a atravessar uma crise de meia-idade: está a perceber que os seus sonhos de infância não se vão concretizar, mas falta-lhe valorizar o percurso de vida que tem atrás de si. A UE representa 7% da população mundial, 23% do PIB e 50% da despesa pública; e quase todas as nações europeias estão no topo da lista global de esperança de vida, acesso à educação e PIB per capita. Apesar da desigualdade, a UE não é um paraíso do capitalismo selvagem e é graças à sua acção em bloco que consegue ter uma palavra a dizer na globalização. Individualmente, cada país europeu seria absorvido pela dinâmica global [12]. Quem quer que seja a China a ditar as regras?