Nota do editor: este artigo é um resumo do artigo do Noah Charney, publicado no «Salon» [1]


Até à década de 1930, os estudantes alemães aprendiam o que é um rinoceronte a partir duma gravura imprecisa, mais parecida com um cavaleiro medieval do que com o real animal, feita por um artista, Albrecht Dürer, que jamais vira um.

Depois, vieram os nazis e roubaram livros, muitos livros (muitos mais do que obras de arte, de que se fala muito mais), com dois objectivos concretos: retirar aos inimigos as «armas» do pensamento; e anular a memória e a História, particularmente aquela em relação aos seus crimes de guerra. Para isso, era importante controlar a memória dos Judeus, representando-os como a encarnação do mal para todas as gerações futuras.

É aqui que o exemplo do rinoceronte se torna relevante: a escolha dum artista alemão para representar algo que se pretende ensinar, sem olhar à realidade, é uma linha de pensamento ideológico nazi.

Poder eliminar corpos de conhecimento guardados em compêndios nas bibliotecas da era pré-digital permite reescrever os factos a gosto do autor. Era este o principal objectivo dos nazis: a capacidade de manipular a História e assim programar o pensamento das gerações futuras.

Esta era uma empresa colossal, pois implicava eliminar a totalidade dos livros. Um só livro que restasse poderia vir a ser encontrado e originar questões acerca da realidade oficial.

Actualmente, a informação mais fidedigna permanece nos livros, mas, cada vez mais, os «factos» são procurados pela população na Wikipédia e noutras fontes virtuais, que qualquer um pode alterar (para o bem e para o mal). Uma versão contemporânea do roubo de livros nazi seria, digamos, um candidato presidencial, em conluio com um país hostil àquele onde era candidato, usar a internet para difundir histórias falsas e eliminar os factos reais. Após uma ou duas gerações, o mundo poderia esquecer como a História era apresentada anteriormente e aprender somente esta nova versão dos factos. Logisticamente, uma ciberconspiração deste tipo seria mais fácil de concretizar, do que roubar todos os livros existentes no planeta.

Ainda é possível encontrar a fotografia do Albrecht Dürer na página da Wikipédia sobre o rinoceronte. Se, um dia, as fotografias desaparecerem e ficarmos reduzidos a uma imagem escolhida ideologicamente, é altura de nos preocuparmos.