Por Gustavo Martins-Coelho


Mas para que raio serve o check-in online, nos aviões?

Check-in é uma forma chique de dizer:

— Cheguei!

Dizer coisas em Inglês é sempre mais chique. Mesmo que os ingleses as não digam como nós.

Fazer o check-in online é um contrassenso.

Ao fazer o check-in, estamos a dizer ao aeroporto que já chegámos e que podem contar connosco para embarcar no voo respectivo. Se o fazemos online, dizemos — cheguei! — ainda antes de sairmos de casa! Como que anula o efeito pretendido…

Os saxões têm uma expressão que diz isto muito bem: it defeats the purpose.

Mesmo que tal expressão nada acrescentasse, ficaria na mesma bem dizer, porque é Inglês. O Inglês é sempre mais chique.

It defeats the purpose: derrota o objectivo. É assim mesmo: somos derrotados, de cada vez que fazemos um check-in online!

Volta até mim o purpose, que me traz de volta a ti [1]. Circundas-me ameaçadoramente…

Deste-me um pato amarelo. O pato tornou-se a metáfora perfeita do que somos. Ao pé de ti, tolhe-se-me a semântica e já nem sei que sons fazem os animais. Nunca me deixaste esquecer essa fraqueza e deste-me o pato para ma lembrar continuamente.

Com a passagem do tempo, a costura que une o pescoço do pato ao seu corpo foi-se alargando e o pato foi-se assemelhando à rainha Maria Antonieta. Era fácil repará-lo: bastava coser o que se descosera. Não o fiz, por preguiça. Nem tu. Não esperava que o fizesses, note-se! Mas foi isso que nos aconteceu. Não quebrámos, apenas nos retorcemos e não achámos que valesse a pena endireitar-nos. Por preguiça, perdemo-nos um do outro e deixámos que o pescoço se separasse do corpo do que éramos. Decapitámo-nos.

O pato também ainda lá está, semi-decapitado. Derrotado, como nós.

A derrota engorda e a gordura não é formosura. Os gordos são feios e doentes e o resto é propaganda.

Certa vez, passei por um labrador que parecia um manatim, de tão gordo que era. Os cães também podem morrer de enfarte?

Engordar um cão até à morte pode ser considerado submetê-lo a maus-tratos? Aos patos, diz que sim [2].

Sempre quis usar a palavra «manatim» num texto. Há nomes de animais fantásticos. Cachalote, por exemplo!

Vaca é um nome bastante mais desinteressante, mas, por outro lado, são bichos sagrados, na Índia — coisa que não se pode dizer dos manatins, nem dos cachalotes.

Será que existem frasquinhos de bosta benta à venda na Índia?

— Sometimes, when I wipe, I’ll wipe and I’ll wipe and I’ll wipe and I’ll wipe… A hundred times. Still poop, still poop. It’s like I’m wiping a marker or something.

Disseste-me que tinha de ter cuidado, pois era perigosamente culto. Nessa mesma tarde, sentei-me a ler Eça de Queirós: «As farpas». Passou-me logo a soberba. Ainda bem que há o Eça, para nos reduzir à nossa pequenez.

O Eça e o Ramalho Ortigão. Já este dizia, em 1872: «aos que fizerem contratos com o governo, para que o obriguem a dar fiador».

Sábias palavras!

De poucas palavras se pode dizer serem sábias. O mais frequente é serem vazias e baratas. Note-se como a quantidade é inversamente proporcional à qualidade. Talvez por isso quem fala muito se denomine fala-barato. Fala muito, mas não tem qualidade no que diz. É barato, portanto, se admitirmos que vivemos num mundo ideal, onde o mercado efectivamente funciona.

Um método infalível para nos livrarmos dum fala-barato é irritá-lo até ele cortar relações connosco. Quando um fala-barato deixa de nos falar, o que a vida ganha em sossego compensa largamente o peso na consciência de sermos tão más pessoas.