Por Hélder Oliveira Coelho


Há não muito tempo, entrei num alfarrabista. Talvez seja difícil explicar à geração do tablet o que é um alfarrabista. Vou tentar fazê-lo da forma mais simples que sei: pegando na definição, será tão-só um negociante de livros velhos. Pronto, está feita a definição. Estaria, se fosse de facto assim tão simples, mas não é! Antes do toque num ecrã de plástico, houve centenas de anos em que o saber se foi guardando em papel. É lastimável que a inteligência humana não tenha conseguido resolver esse terrível gasto energético e ecológico em menos séculos. Criou-se um circuito de vício nefasto — a leitura, o livro, o conhecimento, o toque.

Bem mais simples de regrar seria este mundo, se o apocalíptico abismo da ignorância regesse. A selvática vontade do ímpeto animal bastaria para controlar o mundo — longe da moral, da ética, distante do bem e do mal. A vontade dos sentidos bastar-se-ia a si mesma. Reza então a pequena desvantagem de não mais existir humanidade, antes e só animalidade. Que tem isto tudo que ver com o alfarrabista? A leitura, o livro e o conhecimento andam de mãos dadas. Muito foi escrito sobre como o conhecimento surge e como se transmite. Contudo, não se nega que o veículo, sob a forma escrita, é um dos mais importantes. Por conseguinte, a leitura é uma evidência. Não obstante, nenhuma das anteriores obriga ao livro, nem tem por corolário imediato o conhecimento. Prova está na dita geração dos ecrãs. Qual então a importância do tema e a ligação com o alfarrabista?

A memória. O conhecimento está também intimamente ligado à memória. Um livro velho é muito mais do que um livro velho. É um retrato da época, um pedaço da alma de quem o leu, um laivo da memória do tempo. O ecrã, que oferece o paradoxo do toque, afasta o sentido do tacto. Neste tempo em que o génio da condição humana faz do toque a criação moderna de Midas, trazendo ao segundo tudo o que vai para cá e para lá do que é possível imaginar ou conservar no espaço físico das nossas casas, mata-se também o sentido do tacto. O volume, a textura, o inebriar dos sentidos com o cheiro. A química da gráfica recente ou o amarelecido semblante seco e envelhecido. A encadernação gasta ou em fino e delicado dourado sobre pele animal. Tudo isso justifica o alfarrabista.

Naquele dia, encontrei um verde seco, talhado a dourado, com régua e esquadro, desenhando letras sobre o couro já desidratado, mas ainda não gasto. Era uma primeira edição. Não tinha séculos. Passavam apenas décadas. Os meus pais podiam ter aprendido por ele. Em bom rigor, a nossa existência distava não mais de uma dezena de anos. Em Espanhol. A edição original era inglesa. Distava uma da outra não mais que um ano. O suficiente para que o quartel de século mudasse. Da edição por que eu aprendi, há um novo paradigma a marcar o saber. Distam de facto séculos em não mais que sete edições. A memória — dizia eu há pouco — a memória que justifica o saber.

Abro na página dos agradecimentos e consta:

É evidente que a qualidade que possa ter este livro depende de muitos; os erros hão-de corresponder estritamente a quem o assina.

Como se um raio me fulminasse (não que raios me tenham fulminado antes). Era um velho livro médico. Não precisei mais que folheá-lo para saber o quão desactualizado estava. Não precisei ler mais do que o preâmbulo dos agradecimentos para me sentir esmagado por um livro velho.

Estavam ali mais do que as evidentes noções da doença dos homens. Era a crua realidade da finitude do sucesso e da glória no amargo momento do erro. Por definição da condição humana, está a repelente e esquálida espada do equívoco. Tão certa, como certa é a morte depois da vida. Não bastasse a trágica condição do Homem em saber-se cativo da falha, esta frase encerrava em si a sinistra circunstância da solidão. No auge, todos estarão e serão de menos. O abismo do erro há-de assumir-se só. Ninguém descerá cordas ou escadas para partilhá-lo. E, se é certo o sucesso de alguns, mais certo é o erro de cada um. Se, ao primeiro, não há-de faltar quem o reclame como parte seu, ao último não mais restará do que o desamparo.

Não haja, portanto, dúvidas de que, depois do poder, vem o esquecimento. Depois da certeza, a dúvida. Depois do êxito, o erro. Não estarão outros junto a nós, para além dos que muito nos amam. Contados, uma mão chegará para reconhecer os verdadeiros. Quantas vezes o encandear ofuscante da luz do palco da vida impede que vejamos quem nos quer bem. Será na tenebrosa e solitária treva do erro que havemos de reconhecer o verdadeiro e incondicional amor. Assim o tenhamos sabido cultivar nas malhas do quotidiano, no toque diário, no livro da vida.

É evidente que a qualidade que possa ter este livro depende de muitos; os erros hão-de corresponder estritamente a quem o assina.

Termino com a enigmática peça de Tchaikovsky, op. 6, n.º 6. A última de seis peças para piano e voz, compostas em finais de 1869. «None but the lonely heart», título traduzido para inglês do poema alemão de Goethe. Aqui, numa versão para piano e violino.