Por Gustavo Martins-Coelho


Não me canso de chamar a atenção para a importância da cultura. Um psicólogo holandês chamado Geert Hofstede estudou isso a fundo, mas não precisamos de ir tão longe. Para vermos um bom exemplo de diferenças culturais, basta-nos olhar para «A pequena sereia», tal como contada pelo H. C. Andersen ou pelo W. Disney. «A pequena sereia» do Andersen baixa-nos as expectativas e poupa-nos desilusões. «A pequena sereia» do Disney eleva-nos as expectativas e facilita-nos o desapontamento [1, 2].

O Walt Disney é o maior culpado do nosso fastio: após décadas a ensinar às nossas crianças que a princesa sempre fica com o príncipe encantado, os adultos que uma vez foram essas crianças iludidas pelos desenhos animados esqueceram que o príncipe está, a esta hora, na cama com a Cinderela e não tem tempo para outras cavalgadas. Vontade, talvez. Mas o tempo mata tudo.

Aliás, os príncipes que o Walt Disney desenhou são altamente perturbados. Um sofre de necrofilia e vai beijar a Branca de Neve morta. Outro aproveita-se da Bela Adormecida, que não está em condições de lhe dizer que não. Um terceiro tem um fetiche com pés e sapatos. Só para dar alguns exemplos. Já para não falar da Bela com síndroma de Estocolmo! Como poderíamos não precisar todos de psicoterapia??

Por cá, mais diferenças culturais. Somos um povo soturno. Andamos todos em carros pretos ou cinzentos. A vantagem de ter um carro amarelo é conseguir discerni-lo facilmente no parque de estacionamento, no meio da maré negra.

Nunca percebi por que os carros mais caros foram os primeiros a incorporar a função de desligar automaticamente, quando os colocamos em ponto morto, por exemplo, num semáforo. Chama-se a isto start-stop. Poderia ser «liga-desliga», mas, em Inglês, soa sempre mais tecnológico.

Tudo soa melhor em Inglês. Até a idiotez. «Maroon 5» ou «5 Idiotas» — qual soa melhor?

Justiça seja feita, «maroon» não significa «idiota» — pelo menos, não só isso. Pode ser também um escravo fugido, um navegante abandonado numa ilha deserta, uma cor, ou um sinal luminoso.

É capaz de ser essa a beleza do Inglês: uma palavra, cinco significados, desde o insulto até à estética, passando pelo salvamento.

Em Português, não temos disso: cada palavra tem o seu significado preciso…

Mas dizia eu que nunca percebi por que motivo os carros mais caros foram os primeiros a incorporar a função start-stop. Supostamente, não deveriam ser os pobres — que compram os carros mais baratos, sempre em tons de preto — a mais precisar de poupar uns trocos de gasóleo (porque é mais barato do que a gasolina) no semáforo?…

É como os bancos: ficam isentos de comissões bancárias — os ricos, que têm saldos médios acima do valor definido pelo banco. Os pobres, que já têm a conta sempre perto do zero, ainda são brindados com lastro, para puxar o valor mais para baixo!

Assim vai o mundo.

Mas falemos do que realmente interessa: já alguém se deu conta de que o Martin Luther King se chama, em bom Português, Martinho Lutero Rei?

O Martinho tinha um sonho. Uma aliteração em «nh». Eu também sonho. Mas, como sou pequenino, os meus sonhos são muito mais comezinhos do que os do Martinho.

Em boa verdade, nem sei o que sonho: ao acordar, nunca me lembro do que sonhei durante a noite.

Não tenho um sonho para mostrar. O meu mundo onírico não se cruza com o mundo físico.

Talvez seja melhor assim. Dizem que, se contarmos os sonhos, eles não se realizam [3]; e eu quero que os meus se realizem!

Isto nunca mais chega ao fim??