Nota do editor: este artigo é um resumo de parte do artigo do Rick Perlstein, publicado na «Mother Jones» [1]


Em Outubro passado, leccionei um seminário a nove estudantes de topo em Oklahoma, durante o qual ficámos a conhecer-nos muito bem. Havia seis mulheres afro-americanas, uma mãe solteira, um miúdo branco, que se identificava como queer e um homem branco heterossexual — chamemos-lhe Pedro.

O Pedro tem 21 anos, é evangélico e mora numa vila de 3.000 habitantes, 85 % dos quais são brancos e apenas 1,2% (o que dá 34 almas) negros. A maioria dos habitantes vive no limiar da pobreza; e a caça é tanto um desporto como um meio de subsistência.

O Pedro foi um dos alunos mais brilhantes e o mais simpático. No último dia, apareceu com um boné «make America great again».

Um dia, num dos trabalhos que lhes pedi, o Pedro escreveu oito páginas eloquentes e acutilantes, que eu aproveitei para ler à turma. Para os colegas, foi a primeira vez que viram um apoiante do Donald Trump explicar claramente no que acreditava e porquê.

O ensaio do Pedro partia do livro de leitura recomendado para o seminário, que defendia que os movimentos conservadores, ao longo da História, se uniam em torno da manutenção da hierarquia social recebida. O Pedro discorda desta teoria. Segundo ele, na sua vila, o povo vive no meio da floresta ou em quintas, totalmente dependente do clima, muito longe, sequer, do meio da hierarquia social. Portanto, nada têm a ganhar com a manutenção desta ordem social, que os mantém no fundo. Na sua vila, o Donald Trump ganhou com setenta por cento dos votos.

Sobre a raça, o Pedro disse que, em Oklahoma, há muito poucas minorias, pelo que não há fundamento para o racismo. Uma das alunas afro-americanas apontou, com razão, que os brancos tendem a não ver o racismo, até ele acontecer à sua frente e de forma extrema. Mas, para efeito desta história, o Pedro não é racista — o que nos traz à grande questão: o voto no Donald Trump representa uma recrudescência do preconceito numa nação cada vez menos branca, ou uma resposta economicamente fundamentada às privações que o neoliberalismo impôs ao interior?