Nota do editor: este artigo é um resumo do artigo do Martin Lukacs, publicado no «The Guardian» [1]


As recomendações que nos são feitas para proteger o ambiente — usar canetas recarregáveis, substituir as luzes por cores leves e mais eficientes, usar as escadas em vez do elevador, comprar vegetais locais, preferir electrodomésticos ecológicos, instalar painéis solares e ter menos filhos (!) [2] — são o equivalente a usar panos húmidos para apagar uma casa em chamas ou a ir para um duelo com um mata-moscas.

Esta exortação à acção individual parece natural, mas, enquanto nos esforçamos por nos tornarmos verdes, as companhias petrolíferas tornam estes esforços irrelevantes. Desde 1988, apenas cem empresas são responsáveis por 71% das emissões de gases com efeito de estufa, a nível mundial [3].

O direito destas empresas a poluir não é uma coincidência; é o resultado da guerra ideológica dos últimos quarenta anos, contra a acção colectiva. O projecto político do neoliberalismo [4] assenta em dois pilares: desmantelar as barreiras ao exercício do poder privado e erguer barreiras ao exercício do poder público democrático. O primeiro conseguiu-se à custa de privatizações, de desregulação, de redução de impostos e de acordos de comércio livre, que permitiram às empresas acumular lucros gigantescos. O segundo conseguiu-se através de lóbis, de donativos, do esvaziamento da democracia e da limitação da acção dos sindicatos.

Agora que as alterações climáticas requerem uma acção colectiva decisiva, o neoliberalismo é uma barreira, que tem de ser superada através da destruição dos seus dogmas do mercado livre: nacionalizar os caminhos-de-ferro, a energia e os serviços públicos; regular as empresas produtoras de combustíveis fósseis; e aumentar os impostos, para financiar o investimento em infraestrutura resistente ao clima e em energias renováveis.

O neoliberalismo não só tornou esta agenda politicamente irrealista, mas culturalmente impensável. A sua celebração da competição e do individualismo e a estigmatização da compaixão e da solidariedade fragilizou os nossos laços colectivos [5] e destruiu o conceito de «sociedade». As pessoas tornaram-se mais individualistas e consumistas [6].

O neoliberalismo ensina às pessoas o sentimento de culpa. Não ter um bom emprego, estar doente, ter dívidas, não ter amigos (ou tempo para estar com eles), não se sentir realizado — são falhas individuais. Além disso, cada um é, também, individualmente responsável pelo potencial colapso ecológico.

É claro que precisamos de que as pessoas consumam menos e procurem alternativas amigas do ambiente. Mas as escolhas individuais só farão diferença, quando o sistema oferecer alternativas ecológicas para todos e não só para os ricos e intrépidos: se não houver transporte colectivo barato, as pessoas vão de carro; se a comida orgânica for demasiado cara, as pessoas vão comprar comida processada. O neoliberalismo ensina-nos a abordar as alterações climáticas do ponto de vista da carteira de cada um, não através da política.

O eco-consumismo pode fazer-nos sentir melhor, individualmente. Mas só um movimento em larga escala pode alterar a trajectória da crise climática; e tal movimento requer que, antes de mais, deixemos de pensar como indivíduos.

A boa notícia é que a mudança já está a acontecer e o colectivo está em vias de regressar ao palco político. Resta aos partidos aproveitarem os movimentos da sociedade civil e desafiarem o dogma neoliberal. Os trabalhistas britânicos já apresentaram um projecto redistributivo para combater as alterações climáticas, limitando o espaço de manobra dos oligarcas e obrigando-os a pagar a transformação. Esta ideia foi alvo de chacota da classe política e da comunicação social, mas milhões de eleitores deram-lhe crédito. A «sociedade», há muito desaparecida, parece ter regressado.

Portanto, cultive cenouras e ande de bicicleta, se isso o fizer sentir melhor. Mas pare de se preocupar com a sua ecologia individual e comece a preocupar-se com a tomada colectiva do poder.