Nota do editor: este artigo é um resumo do artigo do Adair Turner, publicado no «Project Syndicate» [1]


A automatização, os robôs e a inteligência artificial eliminaram muitos postos de trabalho e ameaçam eliminar muitos mais, mas o crescimento da produtividade abrandou, nas economias avançadas.

Alguns economistas culpam o investimento, a qualificação, a desactualização da infraestrutura ou a regulação excessiva. Outros apontam a diferença entre os mais e os menos inovadores, que baixa a média. Outros ainda questionam o poder transformador da tecnologia da informação. Mas a explicação poderá ser mais profunda: quando mais ricos nos tornamos, menor o crescimento da produtividade e menor a relevância do PIB per capita como medida do bem-estar humano.

O nosso modelo mental da produtividade reflecte a transição da agricultura para a indústria: duma situação inicial, em que cem agricultores produzem cem unidades de comida, a tecnologia permite passar para uma situação em que cinquenta agricultores produzem as mesmas cem unidades de comida e os outros cinquenta vão trabalhar para fábricas, onde fabricam produtos de consumo, e a produtividade duplica; este processo pode repetir-se eternamente e incluir a passagem também para os serviços.

Mas pode não ser assim: os agricultores mais produtivos podem tornar-se empregados domésticos ou artistas, ou metade deles criminosos e a outra metade polícias. No primeiro caso, apesar do benefício para o bem-estar humano, a produtividade global mantém-se inalterada; no segundo caso, a produtividade sobe (pelo aumento de serviços públicos prestados), sem que a isso corresponda um aumento do bem-estar.

Parte da desaceleração do crescimento da produtividade pode ser explicada pelo aumento do número de empregos relacionados com actividades difíceis de automatizar e mal pagos: serviços de entregas, cuidados pessoais e apoio domiciliário, por exemplo. Mas a parte principal é explicada por actividades de soma zero: serviços jurídicos, polícia e prisões; cibercrime e cibersegurança; reguladores financeiros e contabilistas «criativos»; campanhas eleitorais; imobiliárias e outros serviços de compra e venda de bens já existentes; e operações financeiras. Muito do design, publicidade e marketing é também de soma zero: é bom ter modas novas, mais escolha e criatividade, mas é pouco provável que o design de 2050 nos torne mais felizes do que em 2017. Estas actividades de soma zero representam uma fatia crescente da economia; e sê-lo-ão cada vez mais, à medida que satisfazemos necessidades mais básicas.

Outras convenções também têm impacto na produtividade. A subida dos preços das casas e das rendas faz aumentar a produtividade (porque a renda é contabilizada no PIB), mesmo que a oferta de casas permaneça inalterada. Mais advogados de divórcio aumentam a produtividade (porque são pagos pelo consumidor final), mas mais advogados comerciais não (porque são consumos intermédios das empresas).

A tecnologia da informação pode melhorar o bem-estar humano, de formas não medidas pelo PIB: o tempo poupado a preencher formulários, a fazer telefonemas e em filas, graças às compras na internet e aos motores de busca, e os serviços de informação e entretenimento gratuitos são dois exemplos. De facto, o PIB e o bem-estar acabarão por não estar relacionados: num mundo em que robôs fabricados por robôs e alimentados por energia solar realizarem a maior parte das tarefas necessárias ao bem-estar humano, toda essa actividade representará uma proporção mínima do PIB, por ser tão barata; e quase todo o PIB consistirá em actividades de soma zero ou impossíveis de automatizar — rendas de casa, prémios desportivos, bilhetes para eventos artísticos, direitos de autor e custos dos sistemas político, legal e administrativo. O crescimento da produtividade será quase nulo e irrelevante para a melhoria do bem-estar humano.

Ainda não chegámos a esse cenário, mas a tendência para esse caminho pode explicar o presente abrandamento da produtividade.