Por Gustavo Martins-Coelho


Não esperava que tivesses chegado a mim sem passado. Também não cheguei a ti sem ele. O passado existe para todos, explica-nos o presente e molda-nos o futuro. É uma parte fundamental, indispensável, da vida, sem a qual seríamos figuras de cera num museu da Madame Tussaud — eternamente paradas num momento infinito, sem passado nem futuro, apenas efeito decorativo.

Não esperava que tivesses chegado sem passado, mas queria que o passado fosse pretérito perfeito e não um imperfeito amarrado ao presente por fios de reminiscências e recordações.

O conceito de amigo colorido é-me estranho. Gosto das coisas claras, mas o amigo colorido é escuro.

Um amigo colorido é alguém por quem se nutre um sentimento duplo.

No dia-a-dia, o amigo colorido é um amigo como outro qualquer. Às vezes, nem sequer é um amigo muito próximo. No fim de contas, talvez fosse, com frequência, mais adequado ao conceito empregar o termo «conhecido colorido».

Temos, então, um amigo ou conhecido que é, no dia-a-dia, igual a outro qualquer, mais ou menos próximo. Mas, ocasionalmente, qualquer coisa faz faísca (o álcool é um combustível profícuo) e o amigo ganha cor. Nessa altura, em boa verdade, o amigo colorido não é assim tão diferente dum namorado, em termos do que se pode fazer com um, ou com outro. A diferença é que, no dia seguinte, extinto o fogo, o amigo volta a ser a preto e branco.

Este processo de coloração e descoloração repete-se periodicamente: o amigo colorido ora é um amigo igual aos outros, ora é um sucedâneo de namorado — e alterna indiscriminadamente entre os dois estados.

As coisas são muito mais claras com um namorado. Um namorado não é um amigo. Às vezes, até nunca foi um amigo, antes de ser namorado; entrou na tua vida directamente nessa condição (com um curto espaço em que é pretendente — palavra que, infelizmente, já não se usa, porque os tolos não sabem distinguir o que realmente lhes confere a tolice). Mas, mesmo que tenha sido amigo, transita para uma classe totalmente diferente, quando assume o papel de namorado. E, quando deixa de o ser, transita de novo para uma categoria diferente das duas anteriores: a de ex-namorado. Mesmo que se mantenha uma boa relação com o ex-namorado, ele não é um amigo como os outros: é um ex-namorado.

Isto é muito importante! Um amigo colorido alterna habitualmente entre dois estádios: o de amigo e o de sucedâneo de namorado. Um amigo, depois de colorido, é-o para sempre. O facto de permanecer a preto e branco durante muito tempo não o impede de ganhar cor da mesma forma inopinada com que acontecera das vezes precedentes. Basta que as condições adequadas, que lhe deram cor pela primeira vez, ou outras semelhantes, tenham lugar.

Já o ex-namorado transitou especificamente para essa categoria, que nunca ocupara previamente, depois de ter passado pela função de namorado. Não é que nunca tenha acontecido a um ex-namorado regredir ao estado de namorado. Mas tal regressão implica uma mudança de estágio, ou de categoria, enquanto, no caso do amigo colorido, implica somente repetir uma transição já feita copiosas vezes no passado. Dá muito mais trabalho e é muito mais raro um ex-namorado voltar a namorar, do que um amigo descolorido voltar a colorir-se.

É por isso que namorar alguém que teve amigos coloridos — alguém que, na verdade, ainda os tem, mesmo que possam estar em fase latente — é um risco para os lintéis. A única forma de deixar de ter um amigo colorido é passar a ter um inimigo.

Mas não é preciso ter um inimigo para ter um ex-namorado. Embora seja frequente. Levamos o amor demasiado a sério.