Por Gustavo Martins-Coelho


 

Este ano, integro, pela primeira vez na minha vida, uma candidatura autárquica: faço parte da lista do Partido Socialista à assembleia de freguesia de Lordelo do Ouro e Massarelos. A cabeça da lista que integro é a Paula Roseira, gestora, empresária vitivinícola e dirigente da mutualista Benéfica e Previdente e da liga de voluntários do Hospital de Santo António. Assumi este compromisso político (e esta aventura, a bem dizer) por duas razões: porque acredito que a democracia necessita de partidos e estes de cidadãos de bem; e porque sinto que merecemos uma política verdadeiramente digna desse nome, capaz de aproximar eleitores e candidatos, cidadãos e os seus representantes. Conto com o seu voto, caro leitor, no caso de estar recenseado na nossa freguesia, para poder concretizar essa visão. Mas, acima de tudo, conto com o seu contributo cívico, agora e ao longo dos próximos quatro anos, na partilha de ideias, preocupações e desejos relativamente à freguesia; e convido-o, seja ou não eleitor de Lordelo do Ouro e Massarelos, a acompanhar, ao longo das próximas semanas, este diário (que não será tão diário quanto isso, em boa verdade) das minhas actividades e reflexões no âmbito da candidatura e da campanha eleitoral, nomeadamente em relação às propostas que espero ajudar a construir em conjunto com a Paula Roseira e os restantes elementos da lista, ouvidas as associações de moradores e todos os cidadãos que nos quiserem fazer chegar a sua opinião.

A minha primeira actividade no âmbito da candidatura foi acompanhar o Manuel Pizarro na entrega das listas das candidaturas do PS aos órgãos autárquicos do concelho do Porto, no passado dia 7. São, no total, nove candidaturas (sete assembleias de freguesia, a assembleia municipal e a câmara municipal), envolvendo mais de 250 candidatos. Penso que devemos começar pelo início, que é a tramitação legal da candidatura. Só depois disso podemos começar efectivamente a fazer o trabalho dum candidato: apresentar as propostas com que nos comprometemos para os próximos quatro anos. Mas estas propostas não nascem do nada: é fundamental, como disse, ouvir as associações de moradores e todos os cidadãos que queiram dar-nos a sua opinião. É nessa fase que nos encontramos: andamos por aí, na rua, a visitar os bairros e as zonas residenciais e comerciais da cidade. Mas não chega. Pela minha parte, estou à distância de um comentário do leitor, no espaço ao fundo deste artigo.

Após a entrega das listas no tribunal, de manhã, começámos logo a ouvir as associações de moradores e os cidadãos que connosco quiseram falar, de tarde. Visitámos o bairro Pinheiro Torres, onde anotámos as ideias muito pertinentes que por lá ouvimos em relação aos equipamentos para ocupação de tempos livres dos jovens do bairro, que permitirão promover a saúde, alargar a oferta de lazer e aumentar a segurança.

Dois dias depois, há precisamente uma semana, visitámos o bairro do Bom Sucesso e aproveitámos para passear pela zona circundante. Fora do bairro, foi muito difícil encontrar portuenses: as casas e os apartamentos da zona residencial do Bom Sucesso são, em grande parte, alojamento local para turistas. Eu andava intrigado por só ver apoio ao Rui Moreira entre os meus amigos de fora do Porto, mas agora começo a perceber porquê: os proprietários que não residem no Porto devem estar felizes com o rendimento adicional proporcionado por este êxodo dos autóctones. Não se dão conta de que, a este ritmo de conversão de habitações em alojamento turístico, que já atinge áreas da cidade fora do centro, brevemente não haverá portuenses no Porto. Nessa altura, o pitoresco colorido humano que atrai os turistas deixará de existir, mas será tarde para ressuscitar a galinha dos ovos de ouro. Precisamos de investir no turismo de forma sustentável e não predadora.

Mais dois dias passaram e chegou o dia de visitar o bairro da Mouteira. Logo ao chegar, encontrámos três jovens de vinte e poucos anos, que nos disseram que nunca votaram e não tencionavam começar agora. Dois deles são portistas, um é benfiquista. Votar é como ir ao futebol. Se houver um Porto-Benfica no Dragão, o Porto tem a maioria destes três adeptos consigo. Mas, se os dois portistas abdicarem de ir ver o jogo ao estádio e apoiar a equipa, porque demora muito tempo a lá chegar, ou porque preferem ir à praia, ou porque o bilhete é caro, ou por qualquer outra razão, só sobra o benfiquista para apoiar a equipa visitante. E a equipa da casa, apesar de ter a maioria dos adeptos na cidade (dois contra um), não sentirá o apoio do benfiquista que estará sozinho na bancada. É assim votar. Não basta ter opinião. É preciso expressá-la nas urnas. Ou arriscamos que a opinião alheia, mesmo sendo minoritária, prevaleça sobre a nossa.

No dia seguinte, o imenso calor não nos fez desanimar e fomos até à zona do Ouro continuar a ouvir o que os eleitores têm a dizer-nos. Às vezes, acontecem coincidências curiosas. Estacionei o carro ao pé do Largo do Cálem e, enquanto caminhava até à simpática tasquinha que era o nosso ponto de encontro, vi um senhor virado para uma parede com as calças desapertadas, a fazer o que a natureza lhe ditava… Uma vez chegado à dita esplanada, uma das sugestões que ouvimos dos frequentadores foi a colocação dum mictório na zona!… Talvez seja coincidência, talvez seja mesmo uma questão premente para os habitantes locais! Pelo sim, pelo não, vamos estudar a colocação de mais instalações sanitárias na freguesia, em espaços públicos onde observemos que as pessoas passam bastante tempo em actividades desportivas ou recreativas e onde não haja outras alternativas.

A seguir à caminhada pela zona do Ouro, onde ouvimos alguns eleitores, incluindo a sugestão que acabei de narrar, achámos por bem sentarmo-nos a reflectir sobre as ideias que connosco foram partilhadas durante a nossa primeira semana de trabalho político. Por deformação profissional, não posso deixar de encarar os órgãos deliberativos e executivos da freguesia como uma espécie de primeira linha da organização democrática do Estado, um pouco à semelhança do papel do médico de família no Serviço Nacional de Saúde. Assim, cabe à assembleia e à junta de freguesia conhecer profundamente a individualidade de cada bairro e de cada rua da autarquia e intervir, dentro das suas competências, através de pequenas grandes medidas que, de forma quase personalizada, melhorem o dia-a-dia de cada cidadão. Por este motivo, o nosso programa para a freguesia, sendo um todo coerente, terá necessariamente de resultar da acreção de diversas partes que, casando e complementando-se, sejam outrossim capazes de dar uma resposta específica às necessidades e aos anseios que têm ressaltado como prioritários em cada local por onde passámos.

E assim passou a minha primeira semana como candidato à assembleia de freguesia de Lordelo do Ouro e Massarelos. Nos próximos dias, continuaremos este périplo de contacto com os cidadãos e as colectividades, com o objectivo de recolher ideias e sugestões para a nossa freguesia.