Nota do editor: este artigo é um resumo de parte do artigo do Rick Perlstein, publicado na «Mother Jones» [1]


Não é justo atacar um jovem de 21 anos por desconhecer os factos [2], principalmente porque (apercebi-me durante o seminário [3]) mesmo os estudantes mais liberais acreditavam em certas narrativas dúbias, só porque foram imensamente repetidas durante o ano todo. Além disso, a ideia fundamental do ensaio do Pedro era o sentimento de pertença e de perda cultural, resultado da tentativa de imposição de novos valores sociais pelo governo federal — e isso não se pode medir.

O Pedro deu como exemplos o casamento entre homossexuais e o aborto, questões em que (e, desta vez, os factos apoiam-no [4, 5]) os habitantes de Oklahoma são veemente contra.

O Pedro não se acha reaccionário; e eu gosto de pensar que o não é; mas uma linha do seu ensaio diz o contrário:

Basta olhar para a Guerra Civil compará-la com o racismo dos dias de hoje para perceber o que acontece quando o governo federal tenta forçar a sua moral nos estados que pensam de forma diferente.

Eu disse ao Pedro:

— Valeu a pena a intrusão do governo, para acabar com a escravatura.

— Eu apenas pretendia chamar a atenção para os resultados violentos e negativos da imposição de valores às pessoas por parte do governo, mas vejo que percebeu como se eu defendesse a escravatura. A forma como olhamos para a mesma questão mostra a grande diferença entre os nossos grupos — respondeu-me ele, e prosseguiu. — É como nestas eleições: quem vota Trump deve ser racista e sexista. Essa condição a priori retira a possibilidade duma discussão política honesta. Tente explicar a alguém que vive abaixo da linha da pobreza, em casa do pai e com uma refeição quente por dia, que é um privilegiado, por ser branco.

Eu tentei apaziguar, citando as pessoas que ganham o salário mínimo, a quem o Donald Trump chama preguiçosos, e os imigrantes que trabalham, mas basta uma multa de trânsito para serem deportados [6]. Mas foi aí que ele voltou à carga com a Guerra Civil, afirmando que a mesma teve custos profundos no Sul, do qual este ainda não recuperou na actualidade, e que bastaria ter esperado uns anos, até que a Revolução Industrial eliminasse, pacificamente, a necessidade de escravos. Enquanto historiador, não pude deixar passar esta afirmação totalmente falsa [7, 8] em branco; e a nossa conversa terminou, com ele a dizer-me que os liberais urbanos têm de viver dez anos ou mais no Sul rural, para o compreenderem.

É verdade que os liberais têm de ouvir e compreender os apoiantes do Donald Trump. Mas ouvir mesmo o mais doce dentre eles é todavia capaz de nos dar calafrios.