Por Gustavo Martins-Coelho


A primeira promessa feita enquanto candidato está cumprida: na semana passada [1], terminei o meu diário (que é, na verdade, semanário) da caminhada até às eleições autárquicas dizendo: «Nos próximos dias, continuaremos este périplo de contacto com os cidadãos e as colectividades, com o objectivo de recolher ideias e sugestões para a nossa freguesia.» Assim fizemos e, hoje, cá estou eu, para relatar os resultados desse périplo, bem como as minhas próprias impressões, a esse propósito.

Na Segunda-feira, dia 14 de Agosto, à tarde, visitámos o bairro da Pasteleira, na companhia do nosso candidato à Câmara Municipal, Manuel Pizarro [2]. Fomos bem recebidos pelos habitantes, muitos dos quais estão imensamente gratos ao Manuel Pizarro, pelo seu trabalho enquanto vereador da habitação e acção social; mas, pelo meio, ouvimos uma voz dissonante, que dizia que os políticos só visitam a Pasteleira em ano de eleições. Até nem é verdade, porque o Manuel Pizarro, durante a sua vereação, por lá passou várias vezes. Mas, acima de tudo, é preciso não esquecer que, numa cidade com 48 bairros camarários, é impossível ao vereador responsável visitar todos diariamente. Já os órgãos da freguesia podem, tal como já referi na semana passada [1], assumir esse papel de proximidade, coligindo as necessidades e as opiniões expressas pelos cidadãos, resolvendo as que estiverem ao seu alcance e remetendo ao órgão autárquico municipal as que ultrapassarem o âmbito das suas competências. Neste quadro, espero poder contar com a confiança dos eleitores para ser a sua voz durante os próximos quatro anos.

Dois dias depois, faz hoje precisamente oito dias, o nosso destino foi a Urbanização das Condominhas, que não deve ser confundida com o Bairro das Condominhas: este é um agrupamento de pequenas casas com jardim, datado dos anos 1930, enquanto aquela é composta por prédios construídos nos anos 1990. Esta questão de nomenclatura deixou-me a pensar que há um certo preconceito contra os bairros, na nossa cidade. Não vou negar a existência de problemas de exclusão social e de criminalidade nalguns bairros camarários, mas não tenho dúvidas de que também lá habitam pessoas honestas, trabalhadoras, socialmente conscientes, politicamente envolvidas — e felizes. Em relação à criminalidade, é preciso destacar o papel que o Manuel Pizarro teve, neste último mandato, no despejo dos habitantes de casas camarárias onde se realizava tráfico de droga, deixando essas casas disponíveis para serem atribuídas a pessoas honestas que delas necessitavam, salvaguardando a legalidade em todos os domínios e devolvendo a dignidade aos bairros camarários. Só falta reabilitarmos a palavra.

Aliás, a prova de que o que nos distingue, a todos os que não vivemos em bairros sociais, das pessoas que aí residem é somente um preconceito associado à palavra — bairro —, tive-a logo no dia a seguir à visita às Condominhas, quando reunimos com a Associação de Moradores do Bairro da Mouteira. Ao ouvir as suas preocupações, vi que muitos dos problemas que me relataram são os mesmos que, cá em casa, a minha mãe e eu elencamos em relação à nossa própria habitação, à nossa rua e à nossa vizinhança…

Outra associação com que reunimos, na Sexta-feira passada, foi a dos Moradores do Bairro do Aleixo. A este propósito, quero partilhar a seguinte reflexão: se resolver o problema do Aleixo fosse fácil, há muito tempo que estaria feito. Peço desculpa a quem achar que estou a dizer uma verdade do senhor de La Palisse, mas, por vezes, parece-me ver o desejo duma solução milagrosa a aflorar nalguns sectores. Há vários valores que se entrecruzam nesta questão: em primeiro lugar, o efectivo combate à pequena e média criminalidade, que não pode passar por simplesmente mudar os criminosos de sítio; em segundo lugar, o nobre papel social que a associação de moradores tem desempenhado enquanto IPSS, que deve ser preservado; em terceiro lugar, o equilíbrio das contas camarárias, que não pode ser escamoteado, mas também não serve de desculpa nem de delimitador de possibilidades; e, em quarto lugar, aquele que me parece o ponto mais importante e deriva directamente das considerações que teci nos parágrafos anteriores acerca do significado dos bairros na nossa cidade: nas casas que os compõem, vivem pessoas dotadas de dignidade, sentimentos e vontade e, por consequência, é o superior interesse dos habitantes do Aleixo que deve guiar a busca por uma solução para o bairro.

No mesmo dia da reunião no Aleixo, mas à tarde, fechámos a semana passada com uma visita ao Agrupamento Habitacional da Pasteleira, que fica imediatamente abaixo do bairro com o mesmo nome e também é, por esse motivo, conhecido como «bairro da Pasteleira nova». Ainda me lembro de não existir Pasteleira nova (visto que foi construída na viragem do século, tinha eu, mais coisa, menos coisa, os meus dezasseis ou dezassete anos) — e lembro-me também do que havia antes no espaço que agora é do bairro: pessoas a viverem em barracas. Só entrei numa barraca uma vez na vida, tinha dez anos, e foi, veja-se lá, numa visita de estudo! A escuridão, a sujidade, o fumo, o chão de terra batida, o frio — ficaram-me na memória. O mínimo que, como sociedade, podemos fazer por cada ser humano é garantir o seu direito à habitação; que, apesar de estar consagrado na nossa Constituição, continua a não ser universal. Mas uma coisa é clara: no Porto, há um partido que tem, na sua história, mais obra feita na perseguição desse desiderato — o Partido Socialista.

Imagem1A propósito do direito à habitação e da preocupação social do PS: debaixo do viaduto que se vê na foto ao lado (para quem não conhece, tirei-a na Rua de Grijó, à saída da VCI em direcção ao Campo Alegre e à Foz), moram pessoas! Este é um problema que tem de ser resolvido, em nome da dignidade destas pessoas e do seu direito à habitação, mas também pela segurança dos moradores da zona.

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Para terminar e já que as imagens não mentem, veja-se, à direita, aquela que comprova que já houve metro em Massarelos! Fora de brincadeiras, contudo, esta fotografia dos testes do Eurotram que serve o metro do Porto, tirada em 2001 junto ao Rio Douro, em Massarelos, e actualmente disponível na Wikipédia [3], faz-me lembrar que foi anunciado, em 2008, que haveria metro no Campo Alegre até 2014. O governo mudou e todos os projectos acabaram esquecidos, porque — disseram-nos — não havia dinheiro. Estamos em 2017 e, desde 2008, houve 146 milhões de euros para alargamentos de auto-estradas no Grande Porto (incluindo este mais recente, da A1), oferecendo mais faixa de rodagem aos carros que querem vir entupir o exíguo espaço do centro do Porto. Com esses 146 milhões de euros gastos em mais rodovia — geradores de mais tráfego automóvel, o que significa mais poluição, mais engarrafamentos, mais necessidade de lugares de estacionamento e mais dependência do petróleo que precisamos de importar —, com esses 146 milhões já teríamos construído a ligação de São Bento à Praça da Galiza que queremos construir agora (e ainda sobrariam, provavelmente, uns trocos); e, agora, os 180 milhões que vão ser dedicados a esse troço poderiam ser usados na expansão da linha pelo Campo Alegre até à Praça do Império. São opções.

Até para a semana!