Nota do editor: este artigo é um resumo do artigo do Owen Jones, publicado no «The Guardian» [1]


Desde que os bancos afundaram o mundo ocidental no caos, disseram-nos que só os cortes poderiam salvar a economia e que a economia nacional era igual à economia doméstica — que não se pode gastar mais, quando se está endividado.

Agora, graças a Portugal, sabemos que não é assim. Depois de ser atingido gravemente pela crise e de ter recorrido ao apoio da troika [2], o governo conservador português aplicou alegremente severas medidas de austeridade: privatizações, aumento de impostos, redução das pensões e dos salários da função pública, aumento da jornada de trabalho, cortes na educação [3] e na saúde… O desemprego subiu [3], o número de falências aumentou [3] e a pobreza tornou-se moeda corrente [4], tudo em nome do controlo da despesa.

No final de 2015, o novo governo socialista virou a página da austeridade [5], pelo meio de vaticínios de novo resgate, por parte da oposição [6], esta inspirada na experiência grega [7] do choque do Syriza com as autoridades europeias. O governo optou por reverter os cortes que eliminaram a procura, de modo a aumentá-la novamente, para haver uma genuína recuperação: aumentou o salário mínimo, reverteu os aumentos de impostos regressivos, repôs os salários da função pública e as pensões, os apoios sociais aos mais pobres e repôs os feriados [8], enquanto criou um novo imposto para casas de valor superior a €600.000 [9].

O desastre anunciado não aconteceu: um ano após a entrada em funções do governo, o crescimento económico foi retomado de forma sustentada, o investimento privado aumentou 13% e o défice reduziu-se para metade [10], permitindo ao país, pela primeira vez, cumprir as regras da zona euro [6]. A emergência social [3] dos anos dos cortes foi substituída pela confiança.

Portugal aumentou o investimento público e o crescimento económico, ao mesmo tempo que reduziu o défice e o desemprego. Disseram-nos que isto era impossível. Os trabalhadores britânicos sofreram a maior redução salarial desde o século XIX e a coligação conservadora foi incapaz de atingir o seu objectivo quanto ao défice. Porquê? Porque menores salários significam menos impostos, menos consumo e mais prestações sociais. Portugal aumentou a procura, o Reino Unido suprimiu-a.

O sucesso de Portugal é inspirador e frustrante: para quê toda a miséria humana da Europa, dos jovens gregos desempregados [11], do aumento da mortalidade infantil e do suicídio, dos espanhóis despejados de suas casas, dos franceses inseguros que se voltam para a extrema direita em busca de refúgio?

Portugal e o Reino Unido dão também uma lição à social-democracia. Na sequência da crise, os sociais-democratas abraçaram a austeridade. O resultado foi o colapso político em Espanha, na Grécia, em França e nos Países Baixos. Em Portugal e no Reino Unido, os partidos de centro-esquerda que rejeitaram a austeridade têm melhores resultados eleitorais do que os seus congéneres.

A austeridade na Europa foi justificada pela ausência de alternativa. Portugal mostra que, afinal, há. A esquerda europeia devia usar a experiência portuguesa para reformar a União Europeia e interromper a austeridade na zona euro. Durante a década perdida da Europa, milhões de nós mantivemos a ideia de que havia uma alternativa. Agora, temos a prova.