Por Gustavo Martins-Coelho


No seguimento da ideia final do meu «diário» da semana passada [1], que dizia respeito ao investimento na expansão da rede do metro do Porto, ou à falta dele, é preciso dizer-se que não basta atirar dinheiro para cima dum problema, para ele se resolver. Exemplo disso é a solução proposta actualmente, que, se nada fizermos, será posta em prática até 2021. Além de atrasar indefinidamente a linha do Campo Alegre, esta proposta é lesiva da mobilidade na freguesia de Lordelo do Ouro e Massarelos e, diria mesmo, em todo o Porto Ocidental — e inclusivamente da área metropolitana, se considerarmos que uma rede de transporte colectivo é tão forte quanto o seu ponto mais fraco. Actualmente, as linhas 200 e 207 da STCP permitem a qualquer passageiro de Lordelo do Ouro e Massarelos que as tome ao longo de Diogo Botelho ou Campo Alegre chegar, sem qualquer transbordo, respectivamente ao Bolhão e a Campanhã. É previsível que estas linhas vejam a sua frequência reduzida, ou o seu percurso alterado, ou até que sejam mesmo extintas (como aconteceu com a linha 79, aquando da abertura da linha amarela do metro), após a abertura da linha do metro no Campo Alegre, visto que estarão, ao longo de grande parte do percurso, em concorrência directa com a mesma, o que não é, de todo, sensato (pretende-se que a rede de autocarros da STCP, sendo, tal como o metro, um serviço público, seja complementar e não concorrente deste). A expansão da rede do metro, tal como actualmente proposta, implica portanto que, quando todas as linhas estiverem concluídas, os passageiros que usam actualmente as linhas 200 e 207 (e todos os que venham a usar a linha do Campo Alegre) sejam obrigados a mudar de linha uma vez (na Praça da Galiza), se pretenderem chegar à Baixa, e duas vezes (na Faculdade de Letras e na Casa da Música), se pretenderem chegar a Campanhã. A junta de freguesia de Lordelo do Ouro e Massarelos, enquanto representante eleita dos seus habitantes, tem de zelar pela sua melhor mobilidade, opondo-se energicamente ao projecto de expansão da rede do metro do Porto anunciado.

Já que falamos do metro e da STCP, é preciso dizer que a passagem desta empresa para a alçada das autarquias abre portas a uma melhoria do serviço. Um funcionário ministerial em Lisboa não conhece as ruas do Porto tão bem como os de cá, logo não tem como delinear a melhor estratégia para que a empresa dê resposta às reais necessidades dos passageiros da área metropolitana. O resultado é, por exemplo, numa das principais vias do concelho e da freguesia de Lordelo do Ouro e Massarelos, a Avenida da Boavista, chegar-se a esperar meia hora por um autocarro, actualmente! Mas não tinha de ser assim! As contas estão feitas: é possível aumentar a frequência para um autocarro de seis em seis minutos (no mínimo) entre as 7h00 e as 21h00, aos dias úteis, na Avenida da Boavista, sem acrescer um euro sequer aos custos [2]. Nós sabemos isso, mas Lisboa não sabe.

Voltando às nossas andanças, no princípio da semana passada, começámos a caminhada no cimo da Rua das Condominhas e acabámos num magnífico cenário em frente ao Rio. Pelo caminho, encontrámos um taxista muito simpático, que nos dizia que estava indeciso entre votar Rui Moreira ou Manuel Pizarro. Presumo que não seja o único com essa dúvida, pelo que partilho hoje a fundamentação da minha escolha: porquê o PS? Em primeiro lugar, porque é um partido e, como eu já disse anteriormente, a democracia necessita de partidos. Um independente não tem história. Vá, no caso do Rui Moreira, tem quatro anos de história, ao fim dos quais pode mostrar a sua parte na responsabilidade pelo governo da cidade que partilhou com o PS. Mas um partido tem, pelo contrário, muita história. Tem passado, tem presente e tem futuro. O Manuel Pizarro é socialista e, nessa qualidade, mesmo que fosse um perfeito desconhecido, os eleitores saberiam o que esperar dele, porque partilha os ideais socialistas que fundamentam a existência do partido e lhe dão consistência. O socialismo é hoje a mesma ideologia que era há trinta anos e o Manuel Pizarro é o digno herdeiro, por exemplo, do grande presidente de câmara que tivemos no Porto, Fernando Gomes. Eu tenho ideias para a minha freguesia (e para a minha cidade), mas muitas dúvidas, diariamente. Os meus camaradas de partido têm, frequentemente, a resposta a essas dúvidas, resultante da experiência e da aprendizagem que fizeram ao longo da sua militância. Certamente, eu também poderei transmitir as conclusões a que for chegando aos novos militantes que me procurem com as suas dúvidas futuras. As ideias contam; e as ideias só florescem se lhes dermos o espaço que é delas: o do debate no seio dos partidos. Um movimento ad hoc, condição dos independentes, não tem tempo nem espaço para produzir uma reflexão mais profunda do que a mera rama dos dias.

Além dessa falta de espaço para o debate político interno, imprescindível para a elaboração de propostas políticas fundamentadas, outro inconveniente dos movimentos independentes é que servem para esconder dissidentes partidários, que, num passe de magia, entregam o cartão de militante e nunca viram nem ouviram nada relacionado com partidos. Segundo as contas do Diário de Notícias [3], 56% das candidaturas de movimentos de cidadãos nestas eleições autárquicas são, na verdade, candidaturas de militantes sem cartão… Mas a maior artimanha de todas é a que nos querem vender no Porto: a de se dizer candidato independente, quando se é apoiado por um partido político. Voltamos à questão da ideologia: ou bem que querem que eu acredite que o CDS apoia qualquer um que lhe apareça à frente em eleições autárquicas (pensamento que, tendo em conta que a cantora Ágata conseguiu ser candidata [4], não é totalmente desprovido de credibilidade), ou então a explicação alternativa é que o CDS apoia os candidatos com os quais se identifica ideologicamente, mesmo que não estejam inscritos no partido. Em sendo este o caso, nada contra. Mas, assim sendo, o candidato Rui Moreira pode rasgar as vestes da independência quanto quiser, que a sua ideologia o coloca junto do CDS. Isso não é mau, no sentido em que não é intrinsecamente mau ser de esquerda ou de direita; são só visões diferentes do mesmo mundo onde todos vivemos, perfeitamente aceitáveis em democracia. Mas é mau, quando não assume claramente as suas opções políticas e tenta cavalgar uma certa onda de descontentamento (às vezes com razão, outras vezes infundado) com os partidos a fim de capitalizar votos, não porque o eleitor se identifique com a sua ideologia, mas somente porque não é político. Se o não é e quer governar, devia começar por sê-lo!

Continuando o relato das visitas que temos realizado, não poderia deixar de dedicar uma palavra à Adilo, a Agência para o Desenvolvimento Integrado de Lordelo do Ouro, com que reunimos no início da semana passada. Nos seus 22 anos de existência, a Adilo geriu, com sucesso, 22 projectos que muito melhoraram a vida na freguesia. Estes projectos foram financiados por diversas entidades públicas e privadas, que os seleccionaram em procedimentos concursais. Este é o modelo mais adequado ao financiamento das organizações não governamentais — associações de moradores, colectividades, fundações, instituições de solidariedade social, etc. — por parte do Estado: projecto a projecto, cada qual com objectivos específicos, mensuráveis, exequíveis, realistas e delimitados no tempo. Chega de drenar os dinheiros públicos para fins e instituições privadas que não se percebe muito bem o que são nem para que servem!

A última visita da semana passada foi ao bairro da Arrábida. Ainda há quem lhe chame bairro Sidónio Pais, tal como há quem chame Santo António à rua 31 de Janeiro. Os nomes ficam, mesmo quando queremos que mudem… Independentemente do nome, todavia, nós andámos por lá e vimos algumas casas devolutas, que os moradores nos garantem serem propriedade da câmara municipal. Eu não conheço a relação de todo o património imobiliário da câmara municipal do Porto, mas, a ser verdade o que nos disseram os moradores, está na hora de reabilitar essas habitações e as usar para alojar pessoas que delas necessitem — por exemplo, os sem-abrigo abrigados debaixo do viaduto da rua de Grijó, de que aqui [1] falei, ou alguns moradores do bairro do Aleixo.