Por Gustavo Martins-Coelho


Quando pensava que nos tínhamos livrado de vez do (não tão saudoso quanto isso) Cavaco Silva, eis que o senhor reaparece, a dizer coisas na universidade de Verão do PSD [1]! Sem se dar conta disso, ao contrapor, no discurso que aí fez, a abordagem realista da direita ao choque ideológico da esquerda, o homem que não é político, mas exerceu cargos políticos em Portugal durante mais de vinte anos, acabou, não por demonstrar a superioridade da direita, como era seu intento, mas a ilustrar lindamente por que devemos votar à esquerda. A razão é muito simples: enquanto a direita se conforma com o que é, a esquerda pensa o que ainda não é, mas pode vir a ser, se assim quisermos. A direita olha para a realidade e contenta-se em administrá-la como um capataz zeloso. A esquerda olha para a realidade e descobre formas de a modificar, melhorando-a para todos. E todos queremos viver num mundo melhor, não queremos?

Esta é mais uma razão, que responde à pergunta que lancei na semana passada [2]: por que é o PS a melhor escolha para o Porto? A primeira razão, dei-a imediatamente a seguir a lançar a pergunta [2]: porque a democracia é baseada no debate plural de ideias, sendo os partidos o fórum privilegiado para que esse debate aconteça. Porém, esta é uma razão geral para votar em partidos em detrimento dos movimentos independentes, mas o PS é um partido entre muitos. Então, a propósito do discurso do antigo presidente da república [1], a escolha fica mais refinada: votar em partidos de esquerda é querer um mundo melhor; votar em partidos de direita é querer manter tudo como está — o bom e o mau. Mas há vários partidos à esquerda e há uma razão para ser o PS em concreto: o PS moldou o Porto como ele é hoje; a cidade de que todos gostamos (e os turistas adoram) foi feita pelo PS.

Prova número 1: a Ribeira. Depois de ser, durante séculos, o coração residencial, comercial e social da cidade, entrou em decadência no final do século XIX, com a transferência dos centros económicos para a Praça da Liberdade e para a Rotunda da Boavista e dos centros residenciais para a Foz e para outras zonas periféricas da cidade; e levou a machadada final com a abertura do porto de Leixões, que lhe retirou a importância que sempre teve como porta de entrada marítima da cidade, tanto para mercadorias como para passageiros. A sua classificação como Património da Humanidade em 1991 e o investimento público na sua reabilitação na década que se seguiu, tudo obra do PS, criaram as condições para que a Ribeira tenha renascido e seja hoje o postal da cidade.

Prova número 2: o Rio Douro. Se é verdade que o rio já existia muito antes do partido, também é verdade que o rio era, desde há séculos, o destino final das águas residuais do Porto. Inicialmente, porque o rio era o receptáculo final dos despejos (água-vai!) que escorriam pelas ruas da cidade até à zona mais baixa; a partir do século XIX, porque o rio recebia os efluentes do sistema de esgotos da cidade. Em 1996, duas câmaras municipais socialistas, Porto e Gaia, avançaram com o Projecto de Despoluição do Troço Final da Bacia Hidrográfica do Rio Douro, que incluiu a construção de três estações de tratamento de águas residuais — duas no Porto (Freixo e Sobreiras) e uma em Gaia (Madalena), que entraram em funcionamento, respectivamente, em 2000, 2002 e 2003. A Ribeira é o postal do Porto, as suas esplanadas enchem-se de turistas e até recebemos uma corrida de aviões sobre o Rio Douro, mas tudo isto seria impossível, se o Rio Douro, sem a intervenção do PS em ambas as margens, tivesse continuado a ser um quase esgoto a céu aberto lamacento e malcheiroso.

Prova número 3: a noite do Porto. Alguém se lembra de como eram a Rua da Galeria de Paris, a Rua Cândido dos Reis, a Rua Conde de Vizela ou a Rua da Fábrica (só para citar alguns exemplos) há vinte anos? Eu lembro-me: sombrias e pouco agradáveis mesmo de passagem, quanto mais para parar. Depois, aconteceu a Porto 2001 — Capital Europeia da Cultura, que dedicou 226 milhões de euros à requalificação de mais de trinta ruas e praças da cidade, onde instalou cerca de setenta quilómetros de infraestruturas e plantou centenas de árvores, numa área total de intervenção superior a 126.000 metros quadrados, na Baixa e não só. A pessoa por trás disto: Manuela de Melo, então vereadora da Cultura e Turismo pelo PS. Naquelas ruas que acima citei (e não só), os passeios alargaram e passaram a convidar à presença de esplanadas e à permanência das pessoas. Os agentes económicos souberam aproveitar as oportunidades criadas e é por isso que hoje temos um espaço público que se anima, à noite (principalmente à Sexta e ao Sábado), com bares à pinha, escancarados e a abarrotar de gente que enche os passeios de copo na mão, bebendo, rindo e conversando, acompanhados pela música; e, de dia, com o mercado de artesanato urbano (no primeiro Sábado de cada mês).

Prova número 4: a Casa da Música. A Porto 2001 — Capital Europeia da Cultura não se limitou a requalificar a rede viária da cidade. Dotou-a, também, de equipamentos culturais. A Casa da Música é o principal legado da Porto 2001 e, portanto, mais uma obra do PS.

Prova número 5: a Praça D. João I. Anteontem à tarde, passei por esta praça e vi que estava a ser preparado um recinto para qualquer coisa. Fui investigar o que era e a página da Porto Lazer diz tratar-se do torneio de iniciados de andebol, no âmbito do «Baixa em Forma» [3]. A Praça D. João I recebe regularmente eventos de animação de rua, desportivos, concertos, feiras, ringues de patinagem no gelo e ecrãs gigantes para vermos os jogos da selecção. Mas, para isso poder acontecer, foi preciso que o espaço tivesse deixado de ser um parque de estacionamento com oficina de automóveis ao fundo, reabilitação proporcionada, mais uma vez, pela Porto 2001.

Entretanto, para terminar, há que referir que começaram os debates televisivos. Quando soube que o Rui Moreira não participaria no debate da semana passada na TVI24, achei que era só porque a sua crença monárquica lhe fazia achar que o rei da cidade não toma parte em cortes com a plebe; o candidato decidiu, democraticamente, que participaria em quatro debates e deixou aos meios de comunicação social a tarefa de negociar entre si quais beneficiariam da enorme honra de receber o senhor presidente-rei. Era mau, mas, afinal, é mais grave: para o nosso presidente da câmara e candidato a continuar a sê-lo, ir ver a bola é mais importante do que debater o futuro da nossa cidade [3]. O futebol à frente da democracia. Quantas mais vezes o Porto ficará pendurado, à espera de que o senhor presidente acabe de ver o jogo?