Nota do editor: este texto é um resumo do artigo do Siva Vaidhyanathan, publicado no «The New York Times» [1]


Depois que o Facebook revelou que centenas de contas de origem russa foram usadas para divulgar anúncios anti-Hillary Clinton junto de utilizadores cujo perfil demográfico sugeria vulnerabilidade à propaganda política, independentemente da ligação dessas contas ao governo russo, uma coisa ficou clara: o Facebook contribuiu para a erosão da democracia norte-americana e beneficiou dessa mesma erosão.

A audácia dum poder estrangeiro tentar influenciar as eleições norte-americanas deve deixar-nos preocupados, mas ainda mais preocupante é que o Facebook torne essa manipulação tão fácil e retire a propaganda política da alçada do escrutínio público.

Isto não nos devia surpreender: qualquer um pode publicar anúncios no Facebook, facilmente e a baixo custo. Essa é a principal razão pela qual o Facebook cresceu tão depressa: o serviço é eficiente, eficaz e rápido, além de dar retorno imediato aos anunciantes quanto aos efeitos dos seus anúncios, permitindo-lhes melhorá-los e personalizá-los em tempo real, e nada tem de errado, se usado para o comércio. Todavia, é alarmante que os executivos do Facebook não percebam que a política não é uma actividade comercial.

Um princípio fundamental da propaganda política é a sua transparência: os anúncios de índole política devem ser visíveis por todos e todos devem compreender que se trata de propaganda política, a sua origem deve ser clara e os candidatos neles representados devem assumir responsabilidade pelo seu conteúdo. Nada disto importa no Facebook. Um anúncio pode ser colocado na véspera das eleições, para ser visto apenas por uma faixa etária ou uma área geográfica, e pode denegrir um candidato opositor, sem que este sequer saiba que isso aconteceu.

Infelizmente, a resposta a este tipo de problemas é limitada: a primeira emenda da Constituição dos EUA protege o Facebook; a diplomacia não foi capaz de dissuadir a Rússia de interferir; o Congresso não está preparado para legislar sobre um assunto que desconhece; e o Facebook não tem qualquer incentivo para modificar o seu comportamento: há demasiado dinheiro envolvido e o assunto é demasiado nebuloso, para alienar mais do que um punhado de utilizadores.

O Facebook anunciou que ia instalar melhores sistemas de filtração de contas que violem os termos de utilização do serviço. Mas pretende fazê-lo com recurso a versões melhoradas da mesma tecnologia que criou o problema e sem qualquer garantia, além da palavra da empresa.

A nossa melhor esperança está em Bruxelas e em Londres. Os reguladores europeus têm vigiado o Facebook e o Google durante anos e já tomaram medidas contra ambas as companhias, por violação das normas de protecção de dados dos consumidores e da concorrência.

Estamos a assistir a um assalto mundial à democracia, com base na internet. Já não são só voluntários e robôs que tentam espalhar publicações nas redes sociais. Agora, há agentes russos a usar o sistema de anúncios do Facebook. Na guerra da informação nas redes sociais, a fé na democracia é a primeira baixa.