Por Gustavo Martins-Coelho


Na minha última crónica, contei a história da primeira vacina [1], a propósito duma página que encontrei no Facebook [2]. Em resumo, o que o inventor da primeira vacina descobriu foi que podia expor deliberadamente pessoas saudáveis a um agente infeccioso — o vírus vaccinia — e com isso induzir protecção contra o vírus da varíola.

Quero contudo chamar a atenção para um ponto muito importante: a inoculação destas primeiras vacinas fazia a pessoa inoculada ficar doente. Ou seja, a vacina provocava uma doença que uma pessoa não vacinada não tinha de padecer. A questão é que essa doença era leve e passava; e, se, mais tarde, a pessoa vacinada contactasse com o vírus da varíola, voltava a ficar levemente doente e passava, enquanto que, se não estivesse vacinada, ao primeiro contacto com o vírus da varíola, desenvolvia a doença em toda a sua magnitude e acabava por morrer.

O mesmo se passa com a vacina da gripe, por exemplo: um dos efeitos secundários desta vacina (que eu, por exemplo, já sofri, após a ter tomado, no início do Inverno) é — imagine-se! — sintomas de gripe! Então, uma pessoa toma uma vacina para proteger duma doença e os efeitos secundários dessa vacina são os sintomas da doença que ele pretende proteger??
Mas, tal como no caso da vacina da varíola, são sintomas mais leves, de duração mais curta e sem outras complicações médicas.

O que acontece é que, hoje em dia, o prato da balança está desequilibrado contra as vacinas, porque a larguíssima maioria da população está vacinada.

Tal como eu disse na última crónica [1], a vacina contra a varíola só se tornou aceite de forma generalizada quando os benefícios se tornaram extremamente evidentes. Inicialmente, apenas uma minoria de pessoas era vacinada. O lado positivo é que, por causa disso, era fácil perceber o que acontecia a esses e aos outros, que não eram vacinados, e fazer a comparação.

Hoje em dia, contudo, praticamente toda a população é vacinada para uma série de doenças — entre as quais não se conta a varíola, porque esta, nunca é demais repetir, foi erradicada do planeta Terra graças à vacinação; e os poucos que não são vacinados beneficiam daquilo a que se chama imunidade de grupo (que eu explicarei, futuramente, exactamente em que consiste, mas para já acreditem em mim: que é como se também estivessem vacinados), ou seja, nós não vemos o que acontece aos não vacinados que sofrem a doença natural, mas vemos o que acontece aos vacinados.

Se, por absurdo, o Eduardo Jenner, quando inventou a vacina contra a varíola, tivesse conseguido vacinar toda a gente da noite para o dia, teria sucedido o mesmo que a nós, na actualidade: as pessoas desse tempo teriam visto toda a gente a adoecer com uma forma leve de varíola e não teriam visto ninguém a ter a forma grave e mortal da doença — e teriam chegado à conclusão de que o Eduardo Jenner andava a pôr as pessoas doentes. Provavelmente, tê-lo-iam linchado por causa disso.

Hoje em dia, os movimentos anti-vacinas defendem exactamente isto: que as vacinas têm complicações e que, por isso, é pior tomá-las do que as não tomar.

Ignoram, ou ocultam (mas vamos ser optimistas e assumir que as pessoas que integram estes movimentos anti-vacinas estão realmente bem intencionadas e só agem assim por ignorância, porque eu acharia muito preocupante e altamente reprovável ética e moralmente, se elas tivessem conhecimento do que eu estou a tentar explicar e, ainda assim, continuassem a defender a não vacinação) — ignoram que a alternativa é muito pior. Comparam a situação de vacinado com potencial de complicações com a situação de não vacinado sem potencial de doença, quando a comparação correcta é entre vacinado com potencial de complicações e não vacinado com potencial de doença — e, aí, não há dúvidas de que a primeira situação é muito melhor.

Aliás, a vacina contra a varíola volta a ser aqui exemplo: em Portugal, por exemplo, foi obrigatória entre 1864 e 1977, data a partir da qual foi retirada do nosso Programa Nacional de Vacinação. Porquê? Precisamente, porque, entre 1864 e 1977, existia varíola e, portanto, a balança pendia a favor da vacina, mesmo que pudessem acontecer complicações, para evitar a situação de não vacina e ficar sujeito a morrer da doença; mas, a partir de 1977, como o vírus foi erradicado do mundo (mantendo-se somente armazenado em dois laboratórios, um nos Estados Unidos e outro na Rússia, por motivos científicos e de segurança), a balança pendeu para o outro lado: já não se justificava fazer as pessoas correr o risco de sofrer as complicações da vacina, se não havia o risco de contrair a doença.

E isto traz-nos à página que eu denunciei no Facebook (e que, note-se, o Facebook nada fez quanto a isso, o que nos leva a concluir que, afinal, a empresa continua a não estar muito preocupada com o papel de desinformação que é levado a cabo pela utilização dos seus serviços, o que é grave) [2]. Essa página é um repositório de denúncias das complicações das vacinas e, a partir dessa análise, a página vem a advogar a não vacinação. Em primeiro lugar, algumas das denúncias são, pura e simplesmente, falsas; mas disso falaremos futuramente. O que interessa, para já, desmontar é que, mesmo a informação que a página disponibiliza e que é verdadeira — as vacinas têm, efectivamente, complicações — é somente um dos lados da questão; e a página não contém qualquer informação sobre o outro lado: como era o mundo antes das vacinas e como ele seria, se as abandonássemos agora. Ora, sendo o título «Vacinas — por uma escolha consciente», uma escolha consciente não se faz prestando atenção apenas a um dos lados da questão — o dos custos — e escondendo os benefícios.