Nota do editor: este artigo é um resumo do artigo do José Pacheco Pereira, publicado no «Público» [1]


A versão nacional da alt-right americana está preocupada com a possibilidade dum recentramento político do PSD e com saudades das virtudes da troika e do Pedro Passos Coelho, apresentado como o melhor primeiro-ministro de sempre em Portugal.

A nossa alt-right está com o PSD (e não com o CDS), porque é o PSD que tem os votos — o que o torna o instrumento da política de prossecução dos seus interesses e da sua visão do mundo —, mas não o reconhece como um dos seus. Apenas tem consciência de que, sem o PSD, nunca teria poder nas urnas.

Por isso, defendem-no, porque sabem que, sem o seu controlo, ficam reduzidos a um pequeno grupo extremista, ou têm de se dedicar ao CDS (fraco instrumento), ou criar um novo partido — hipótese difícil, tendo em conta o bloqueio do sistema político português. O PNR não lhes serve, visto que é o exercício do poder, e não a ortodoxia política, que lhes interessa.

A sua história começou com «O Independente», continuou com os blogues, seguiu no humor e desembocou no governo de Passos e Portas, que lhes deu o braço armado que nunca tiveram. Começaram a ganhar influência na comunicação social (tendo como órgão de expressão o «Observador»), nas redes sociais e nas universidades e fundações; e a contar com poderosos apoios financeiros. Passaram de ser uma moda amável para uma grande agressividade, com ataques ad hominem contra todos os opositores. O vil ataque pessoal contra os velhos, que cheiram a bafio e já passaram de validade, retoma os anos do ajustamento (o tempo da «justiça geracional» e da «peste grisalha») e serve para calar ou desautorizar os que falam com a liberdade que eles não têm. Mas há muitos velhos que eles veneram: não é a idade, são as opiniões que eles atacam, em nome da juventude, porque lhes afronta aqueles que sabem mais do que mandar bocas no Twitter e ter uma vaga existência política nas redes sociais.

A nossa alt-right não é uma direita nacionalista e isolacionista. Foi o neoliberalismo europeu que lhes permitiu uma experiência de engenharia social que nunca passaria nas urnas. Estão agora contra o nacionalismo catalão, não só pela sua afinidade com o espanholismo de génese falangista, mas também porque precisam do PP espanhol para garantir a continuidade da política europeia, como cá precisam do PSD.

Nem cultivam o trumpismo do «Make America great again», porque não gostam muito de Portugal, porque vota demasiado à esquerda, vive do Estado, está contente com a geringonça, é preguiçoso, gosta de viver de dinheiro emprestado e não lhes liga muito.

Têm dificuldade em lidar com as forças armadas e a polícia (a que a direita costumava dar valor), porque o 25 de Abril os faz desconfiar das forças armadas e o sindicalismo policial das polícias, a não ser quando há incidentes que lhes permitam recolocar as coisas numa dualidade útil — ciganos ou imigrantes versus polícias —, tal como se mobilizam pela identidade cultural cristã, contra os refugiados e os muçulmanos.

A ideia de que um recentramento político do PSD levaria à criação dum segundo PS é descabida. O que eles não querem é que o PSD olhe de novo para os problemas sociais, para a pobreza, para a dignidade do trabalho, para o controlo dos grupos económicos, para a imigração equilibrada e justa, para a existência de um elevador social, para impostos progressivos, para a educação, para a habitação e para a saúde; porque isso diminuiria o enorme fosso que separa a riqueza da pobreza, daria poder aos de baixo e poria em causa o direito que os poderosos acham que têm, pelo nascimento ou pela natureza, à sua liberdade.

É isto que está em jogo no actual debate no PSD.