Por Gustavo Martins-Coelho


Continuando a falar de vacinas [1], quero hoje explicar como funciona uma vacina e, para isso, é inevitável falar de sistema imunitário.

Se o nosso corpo fosse um país, cada célula que o compõe seria um cidadão (o que significa que o nosso corpo-país seria mais populoso do que a China, porque há muito mais células num organismo humano do que chineses no mundo, mas isso agora não vem ao caso).

Continuando a analogia, tal como, na nossa sociedade, cada cidadão tem a sua profissão, também as nossas células têm todas tarefas diferentes: o músculo [2] gera movimento, o neurónio [3] transmite informação, a célula do fígado [4] — bom, a célula do fígado faz tanta coisa, que é melhor não entrar por aí!… Mas a ideia deste paralelismo é explicar que, tal como o nosso país tem um exército e cidadãos que exercem funções como soldados, também o nosso corpo tem um sistema imunitário, responsável pela defesa, composto por células-soldado. Essas células são os glóbulos brancos e a defesa faz-se contra os vírus, as bactérias, os fungos e os parasitas.

Na verdade, o exército de glóbulos brancos também faz as vezes de polícia — ou melhor, de GNR, que também é militar —, isto porque também garante que as próprias células do corpo se comportam como deve ser: se alguma delas degenera em célula cancerosa, o sistema imunitário vai lá combatê-la. Mas foquemo-nos na defesa externa, porque, para já, não há, em rigor, vacinas contra o cancro (embora haja uma dita para o cancro do colo do útero, ela é contra o vírus que dá origem ao cancro, não contra o cancro em si mesmo).

Os glóbulos brancos patrulham continuamente o organismo, deslocando-se na corrente sanguínea ou estabelecendo bases nos gânglios linfáticos. Quando encontram uma célula que não reconhecem, atacam-na e destroem-na. Às vezes, eles não reconhecem as próprias células do corpo e é nessa altura que surgem as doenças auto-imunes, como a esclerose múltipla, por exemplo [5]. Mas, mais uma vez, foquemo-nos só na relação do sistema imunitário com os agentes infecciosos, que nos atacam de fora.

Entra aqui uma questão fundamental: quando o sistema imunitário entra, pela primeira vez, em contacto com um micróbio até aí desconhecido, tem de desenvolver as armas para o combater. Isso dá tempo ao micróbio, digamos, de se entrincheirar — isto é, de se reproduzir e causar doença. Se a doença for grave, ou mortal, o sistema imunitário pode nem sequer ter tempo de montar uma resposta adequada, antes que as lesões irreversíveis, ou a morte, ocorram.

Contudo, o sistema imunitário tem também uma óptima característica: tem memória. Se ele entrar em contacto com um micróbio já seu conhecido — ou seja, com o qual já esteve em contacto —, a resposta ao ataque é muito mais rápida e intensa e, graças a isso, muito mais eficaz.

O papel das vacinas é, precisamente, o de simular uma infecção pelo agente contra o qual protegem, pondo o sistema imunitário em contacto com versões atenuadas, ou inactivadas, ou em partes, desses agentes. Assim, quando o verdadeiro micróbio ataca, o sistema imunitário responde imediatamente como se já o conhecesse, graças à memória que guardou da aprendizagem que fez com a vacina.

Então, para acabar, falando do objecto do dia, ele não poderia deixar de estar relacionado com vacinas. A varíola é a única doença que foi erradicada no mundo e parte do mérito é da agulha bifurcada. A agulha tem espaço para uma dose de vacina nas suas hastes e perfura facilmente a pele da pessoa à profundidade ideal para a inoculação da vacina, tendo melhorado muito o processo anteriormente disponível. Entre 1966 e 1977, foram administradas mais de 200 milhões de doses de vacina por ano, o que permitiu então a erradicação da doença.